Do Legado de Tom Perkins à Ressurgência de Mamoon Hamid: Como a Kleiner Perkins Ressurgiu das Cinzas

Quando Mamoon Hamid anunciou sua mudança para a Kleiner Perkins no verão de 2017, o Vale do Silício entrou em choque. A comunidade de capital de risco não conseguia entender por que alguém deixaria a Social Capital — uma firma que ajudou a construir e que se tornou uma das mais quentes do setor — para o que muitos viam como um navio afundando. No entanto, a decisão de Hamid não foi impulsiva; ela tinha raízes na profunda reverência pelo que a Kleiner Perkins já representou, uma firma fundada por Tom Perkins e Eugene Kleiner que moldou toda a indústria tecnológica.

A ironia era aguda: a Kleiner Perkins já foi sinônimo de excelência em capital de risco, mas na metade dos anos 2010, poucos investidores acreditavam seriamente no seu futuro. Hamid, porém, via algo que outros não viam — uma oportunidade de ressuscitar não apenas uma firma, mas um legado que remonta ao DNA do próprio Vale do Silício.

Os Começos Lendários: A Visão Revolucionária de Tom Perkins

A história da Kleiner Perkins começou em 1972, quando Tom Perkins e Eugene Kleiner fundaram a firma, em meio a marcos culturais como a estreia de O Poderoso Chefão e o lançamento do arcade Pong. O que Perkins trouxe ao capital de risco foi uma combinação de expertise em engenharia e pensamento visionário que definiria a indústria por décadas.

O primeiro grande sucesso da firma foi um investimento de US$ 100.000 na Genentech, que retornou um múltiplo impressionante de 42 vezes. Mas foi a parceria com John Doerr — uma figura que compartilhava do rigor intelectual de Perkins — que transformou a Kleiner em uma potência. A abordagem de Doerr, baseada em convicções e uma rede de contatos, tornou-se lendária: ele apoiou o Google quando ainda era incerto, a Amazon quando o comércio eletrônico parecia arriscado, a Netscape quando a internet ainda era incipiente, e a Sun Microsystems durante a revolução dos servidores. Segundo o historiador Sebastian Mallaby, o portfólio da Kleiner chegou a representar cerca de um terço do valor de mercado de toda a internet na época.

A visão original de Tom Perkins criou um modelo de capital de risco que perdurou por décadas: equipes pequenas e focadas de generalistas brilhantes capazes de identificar tecnologias transformadoras antes que o mercado percebesse. Era o tipo de firma que Mamoon Hamid sonhava em ingressar quando era jovem engenheiro na Universidade de Purdue, onde estudou os caminhos de investidores que vieram da engenharia, como Perkins e Vinod Khosla.

O Declínio Prolongado: Erros Estratégicos e Perda de Impulso

Por volta do início dos anos 2000, porém, o domínio da Kleiner Perkins na indústria começou a enfraquecer. A mudança de foco para o cleantech — uma aposta que parecia lógica, dado o convívio de Doerr com a convicção de que energia limpa superaria a internet — mostrou-se tanto premonitória quanto desastrosa. Enquanto empresas como Bloom Energy e SolarCity mostraram potencial, outras, como Fisker Automotive e MiaSolé, resultaram em perdas bilionárias. A aposta no cleantech consumiu capital e atenção, sem gerar retornos consistentes.

Mais prejudicial do que as perdas financeiras foi a desordem interna. Divergências sobre a direção estratégica e o planejamento de sucessão criaram atritos entre os sócios. Vinod Khosla, frustrado com o rumo da firma, saiu para construir seu próprio império, após o sucesso com Juniper Networks. Uma ação de discriminação de gênero, movida por Ellen Pao — embora não tenha tido sucesso na Justiça — manchou gravemente a reputação da Kleiner e reforçou a percepção de uma instituição envelhecida e insular.

Até 2015, a Kleiner Perkins virou uma história de advertência no capital de risco. Os parceiros limitados — as instituições que financiam as firmas de risco — começaram a discutir silenciosamente saídas. Um grande investidor institucional chegou a considerar seriamente uma retirada completa, resignado a descartar a firma como uma relíquia do passado do Vale. A história lendária da marca oferecia uma proteção temporária, mas os céticos duvidavam que a firma pudesse realmente se reinventar. Poucas firmas de risco conseguem fazer um retorno após uma crise; a maioria simplesmente desaparece ou é absorvida por players maiores.

Um Salvador Inesperado Surge

Ted Schlein, uma presença estabilizadora entre os sócios da Kleiner, recusou-se a aceitar essa narrativa. Começou a recrutar Mamoon Hamid enquanto este ainda prosperava na Social Capital, organizando conversas discretas no Allied Arts Guild, em Menlo Park. Schlein percebeu algo em Hamid: uma combinação rara de competitividade intelectual e empatia genuína, fundamentada na humildade conquistada com esforço.

O caminho de Hamid para o capital de risco foi pouco convencional. Criado na Alemanha e no Paquistão, em meio a escassez financeira — lembra-se de cálculos na hora do jantar, quando não havia comida suficiente —, desenvolveu um compromisso quase espiritual de construir seu próprio destino. Após mudar-se para os Estados Unidos, estruturou sua educação com a mesma precisão com que mais tarde lideraria transformações empresariais: engenharia de graduação na Purdue, depois Harvard Business School, seguindo exatamente a trajetória que estudara na biografia de John Doerr.

Aos 24 anos, Hamid identificou o VC como seu veículo de independência, e a Kleiner Perkins como seu alvo singular. Sua redação para o Harvard não foi sutil; delineou explicitamente sua ambição de seguir os passos de Doerr e trabalhar na firma que Perkins e Kleiner haviam construído. Quando a Social Capital o chamou para investir, inicialmente recusou. Só ao perceber que algo poderia estar chegando ao fim, Hamid compreendeu o que significava salvar algo.

Ao ingressar na Kleiner em 2017, fez um movimento pouco convencional: passou semanas conhecendo toda a organização, desde recepcionistas até sócios seniores, mapeando as linhas de conflito cultural da firma. Prometeu à esposa, Aaliya, dezoito meses para mostrar impacto. Mais importante ainda, identificou Ilya Fushman — ex-executivo do Dropbox, na época na Index Ventures — como o sócio que poderia equilibrar sua intensidade com rigor operacional.

Fushman inicialmente tinha dúvidas. A trajetória da Kleiner parecia quase irreversível, e entrar significava apostar na reversão de uma situação que poucos no Vale acreditavam ser possível. Mas a convicção de Hamid foi contagiante. “Não há muitas chances de reviver uma instituição tecnológica icônica,” lembra Fushman. “Se conseguirmos fazer isso de fato, seria extraordinário.” Os dois tinham estilos operacionais complementares: Hamid trazia convicção feroz e empatia ao mesmo tempo, enquanto Fushman contribuía com precisão e franqueza.

Reconstruindo a Cultura do Zero

O plano de transformação de Hamid e Fushman era estrutural, não superficial. Substituíram o antigo escritório de cubículos por espaços abertos e colaborativos. Introduziram retiros internos para reconstruir relacionamentos desgastados pelos anos de declínio. E, mais importante, articularem uma nova missão: ser a primeira ligação dos fundadores na busca por resultados de impacto histórico.

A mudança cultural não foi sem dor. Mary Meeker, investidora de destaque na fase final da Kleiner, que apoiou muitas empresas de sucesso, entrou em conflito com a nova direção estratégica. Ela acabou saindo para fundar a Bond Capital, levando seus relacionamentos de portfólio consigo. A saída foi dolorosa, mas Hamid fez uma escolha deliberada: manter a equipe pequena, ao invés de sacrificar coerência.

Onde firmas maiores teriam substituído Meeker por outro nome de peso, a Kleiner trouxe talentos emergentes como Leigh Marie Braswell, destaque da Scale AI e Founders Fund. Parker Conrad, CEO da Rippling (que a Kleiner apoiou em 2019), observou algo sutil, mas poderoso, na transformação: “O que diferenciava a KP era a síntese de uma pedigree histórica com a intensidade de uma startup. Nada era assumido; tudo tinha que ser conquistado.”

A Kleiner reduziu seu número de sócios de dez para cinco — uma mudança radical que invertia os padrões tradicionais de crescimento. A redução provou ser estrategicamente brilhante. Equipes menores criaram relacionamentos mais fortes com os fundadores e agiram com maior agilidade. A hierarquia que antes dominava as decisões desapareceu, dando lugar a debates baseados em convicções, face a face, sem procedimentos formais de votação. Josh Coyne, sócio desde 2017, comentou a mudança: “As estruturas rígidas que dominavam nossas reuniões sumiram. Discordar abertamente passou a ser não só aceitável, mas valorizado.”

Em 2018, percebendo que até equipes pequenas precisavam de velocidade, Hamid e Fushman criaram um fundo de scout para acelerar a captação de negócios e decisões. Após a saída de Meeker, que redirecionou a firma para oportunidades em estágio inicial, a Kleiner intensificou essa estratégia — cheques menores, relacionamentos mais duradouros, maior agilidade.

Prova no Portfólio: Figma e a Ressurgência

O momento decisivo veio com um investimento que parecia comum na época: a rodada Série B da Figma, em 2018. Hamid conheceu Dylan Field, fundador da Figma, ainda na Social Capital, e imediatamente percebeu o potencial transformador da empresa — quando outros viam uma ferramenta de design, Hamid via infraestrutura. Essa percepção permaneceu quando Hamid passou para a Kleiner, e ele impulsionou o compromisso da firma com a visão de Field.

A trajetória subsequente da Figma validou a convicção de Hamid. A empresa foi ao IPO avaliada em US$ 19,3 bilhões, gerando um retorno de 90x sobre o investimento inicial da Kleiner — uma das apostas de maior retorno na história de cinco décadas da firma. Esse resultado único sinalizou para a comunidade de investimentos que a Kleiner não estava mais apostando apenas na glória passada; ela havia reativado seu motor de convicção.

O sucesso da Figma abriu as comportas. Desde 2018, a Kleiner devolveu US$ 13 bilhões aos seus investidores por meio de saídas em categorias variadas: AppDynamics, Beyond Meat, DoorDash, Nest, Peloton, Pinterest, Slack, Spotify, Twilio, Uber e UiPath. O portfólio evoluiu de relíquia histórica para potência de geração atual. Recentemente, a firma posicionou-se no centro do surgimento da IA, apoiando startups promissoras como OpenEvidence e Harvey.

John Doerr, agora em papel de conselheiro, permaneceu envolvido em grandes fechamentos de negócios ao lado da equipe de Hamid. Sua aprovação tinha valor simbólico; sinalizava que a próxima geração tinha conquistado o legado da anterior.

A posição de capital da Kleiner refletia essa ressurgência. Nos últimos anos, a firma levantou mais de US$ 6 bilhões em vários fundos. A última rodada de captação deve superar o ciclo anterior, que incluiu um fundo de US$ 825 milhões para estágio inicial e um fundo de US$ 1,2 bilhão focado em impacto. Os parceiros limitados, que consideraram sair, agora competem por alocação nos novos fundos da Kleiner Perkins.

Competindo contra os Gigantes: A Vantagem da Agilidade

A tese central de Hamid sobre o futuro da Kleiner baseava-se em uma lógica contraintuitiva: em uma era de fundos gigantes e capital institucional abundante, menor e mais focada vence maior e dispersa. “Nós deliberadamente permanecemos enxutos,” explica Hamid. “Nossos parceiros são a face pública da Kleiner Perkins. Se eles não nos representarem de forma autêntica, preferimos não expandir do que diluir quem somos.”

Essa filosofia competia diretamente com os mega-fundos apoiados por Wall Street e fundos soberanos, entrando no venture com capital praticamente ilimitado. Mas Hamid observou que os fundadores valorizam cada vez mais a profundidade do relacionamento do que a amplitude do acesso ao capital. Um parceiro responsivo, que realmente entenda a missão do fundador, vale mais do que um fundo maior que os trata como uma entre centenas de empresas no portfólio.

O investidor institucional que uma vez redigiu um memorando de saída agora via uma firma com direções fundamentalmente diferentes — menor, mais rápida e mais baseada em convicções. “Ele está destinado à grandeza,” disse o investidor aos colegas. “Ele já provou seu valor nos níveis mais altos. A questão é só até onde ele vai chegar.”

Por outro lado, Hamid permanece paranoico quanto à posição da Kleiner. “A complacência destrói firmas de risco,” refletiu. “No momento em que você acha que descobriu tudo, já começou a declinar. Você tem que estar perpetuamente suspeito do seu próprio raciocínio.”

Essa vigilância remete ao conceito original de Tom Perkins sobre o venture capital: não basta ter capital e redes, é preciso rigor intelectual constante e humildade para reconhecer mudanças de paradigma emergentes antes que os concorrentes o façam. Hamid estudou a trajetória de Perkins, absorveu suas lições e agora encarna seu espírito para uma nova era tecnológica. O legado não foi apenas preservado; foi conquistado novamente.

Ver original
Esta página pode conter conteúdo de terceiros, que é fornecido apenas para fins informativos (não para representações/garantias) e não deve ser considerada como um endosso de suas opiniões pela Gate nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Isenção de responsabilidade para obter detalhes.
  • Recompensa
  • Comentário
  • Repostar
  • Compartilhar
Comentário
0/400
Sem comentários
  • Marcar