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O Venture Capital Crypto Volta à Rationalidade: Novas Estratégias e Oportunidades de Investimento em 2025-2026
As parceiras da Pantera Capital, um dos principais fundos de venture capital no setor de criptomoedas, analisaram recentemente os desenvolvimentos do mercado de investimentos em crypto num podcast aprofundado. A sua discussão revela como o venture capital no setor voltou a princípios de profissionalismo e racionalidade após anos de especulação desenfreada, representando um ponto de viragem crucial para o setor.
O Paradoxo do Mercado: Financiamentos Recorde mas Menos Transações
Um fenómeno aparentemente contraditório caracteriza o panorama atual do venture capital crypto. Este ano, os financiamentos totais atingiram o valor recorde de 34 mil milhões de dólares, no entanto, o número de transações diminuiu quase 50% em relação aos períodos de 2021-2022. Este aparente paradoxo revela uma transformação profunda na forma como os operadores de venture capital selecionam e financiam projetos.
Durante os “anos do metaverso” (2021-2022), o contexto era radicalmente diferente. Taxas de juro quase nulas e liquidez abundante alimentaram uma onda de atividades especulativas. Muitas transações careciam de fundamentos sólidos; os investidores contavam histórias guiadas pela imaginação, em vez de análises rigorosas. O venture capital tradicional tinha dificuldades em avaliar como os projetos de metaverso poderiam realmente ter sucesso, levando a financiamentos dispersos para iniciativas que não deveriam recebê-los.
Paralelamente, o fenómeno do “bull market das altcoins” dos anos anteriores deu lugar a um mercado dominado por três pilares: Bitcoin, Solana e Ethereum. Sem o entusiasmo especulativo das altcoins, diminuiu drasticamente o número de investidores de retalho, family offices e empreendedores dispostos a investir em projetos early-stage. O venture capital moderno provém principalmente de fundos institucionais mais sofisticados, que realizam due diligence rigorosa e concentram os seus investimentos em oportunidades selecionadas.
Esta evolução levou a uma mudança de paradigma no venture capitalism: menos frequência de transações, mas maior qualidade por operação. Até os fundos de venture capital tradicionais de fintech começaram a entrar no setor com abordagens altamente seletivas, contribuindo para esta concentração de capital.
Estratégia de Saída e a Nova Era do Venture Capital Crypto
Um elemento catalisador desta transformação foi a clarificação progressiva dos caminhos de saída (exit) para os investidores. O IPO da Circle foi um momento crucial, demonstrando concretamente como uma empresa crypto podia transitar de rondas seed para cotação na bolsa. Este percurso definido reduziu significativamente o sentimento de risco em todo o setor, permitindo aos venture capitalists visualizar claramente o caminho desde o seed até à série A e, por fim, à cotação pública.
A tokenização de ativos do mundo real, como demonstrado pela Figure, reforçou ainda mais esta consciência. O venture capitalism contemporâneo assistiu a uma mudança nos modelos de saída: dos eventos de geração de tokens (TGE) dos dois anos anteriores para as cotações nos mercados públicos. Investir em equity significa confrontar-se com mercados públicos, investidores institucionais e expectativas completamente diferentes em relação aos investimentos em tokens.
Por fim, a infraestrutura tecnológica amadureceu. A aprovação dos ETFs de Bitcoin (um processo que demorou mais de uma década) criou as condições institucionais necessárias para operações de maior escala. O venture capital crypto finalmente dispõe das ferramentas adequadas para gerir saídas de nível institucional.
Tesouraria de Ativos Digitais e a Evolução dos Instrumentos de Investimento
Entre as inovações recentes destaca-se o conceito de Digital Asset Treasury (DAT), que representa uma evolução na sofisticação do venture capital. Os DAT podem ser conceptualizados como “máquinas” de geração de valor: em vez de deterem passivamente ativos, gerem-nos ativamente para produzir rendimento contínuo, tal como comprar ações de uma petrolífera em vez do barril bruto em si.
O mercado, contudo, sofreu um arrefecimento em relação aos DAT. Este fenómeno não representa um fracasso, mas sim o sinal de uma maturação do venture capital: os investidores agora concentram-se na capacidade executiva efetiva da equipa de gestão, abandonando a pura especulação. É uma transição positiva rumo à racionalidade no venture capitalism.
O futuro dos DAT parece promissor, apesar do arrefecimento temporário. Ferramentas de investimento geridas ativamente manterão sempre valor. Até as fundações dos projetos poderão transformar-se em DAT, gerindo os seus ativos através de instrumentos profissionais de mercados de capitais, em vez de manterem formas nominais como atualmente. Contudo, a geografia do crescimento será diferenciada: enquanto o boom nos EUA poderá estar próximo da saturação, Ásia-Pacífico e América Latina ainda oferecem oportunidades significativas de expansão. Apenas os DAT com equipas executivas sólidas e capacidade demonstrada de crescimento constante dos ativos prevalecerão na futura consolidação do mercado.
Tokenização, Zero-Knowledge Proof e o Futuro do Venture Capital Crypto
Olhando às perspetivas de investimento futuro, duas tendências dominam a análise dos venture capitalists contemporâneos: a tokenização e a tecnologia zero-knowledge proof.
A tokenização, embora tema conhecido há anos, representa uma tendência que se desenrolará ao longo de décadas e está apenas no início da sua fase de aplicação real. Seguido por especialistas desde 2015, o setor demorou dez anos de evolução até que instituições e clientes reais participassem ativamente. O estágio atual lembra os primórdios da Internet, quando os conteúdos dos jornais eram simplesmente republicados online. Hoje, os ativos são “copiados-colados” na blockchain para eficiência e globalização, mas o verdadeiro potencial reside na programabilidade: através de smart contracts, esses ativos podem gerar novos produtos financeiros e modelos inovadores de gestão de risco.
Dentro da tokenização, as stablecoins representam a aplicação de maior impacto. Com regulamentação cada vez mais transparente, estão a libertar o verdadeiro potencial da “moeda sobre o Protocolo de Internet”, tornando os pagamentos globais extraordinariamente económicos e transparentes. Na América Latina e no Sudeste Asiático, as stablecoins constituem a principal chave de acesso para a adoção de criptomoedas pela população comum. O venture capital reconhece nestes mercados um potencial de crescimento enorme.
Quanto à tecnologia ZK-TLS (prova de rede), a blockchain enfrenta o problema do “lixo entra, lixo sai”: dados incorretos na entrada tornam a blockchain inútil. A tecnologia ZK-TLS permite verificar a autenticidade dos dados off-chain (extratos bancários, históricos de transações, trajetos de táxis) e trazê-los para a cadeia sem expor os dados subjacentes. Isso permitiria que dados comportamentais de aplicações como Robinhood ou Uber interagissem com segurança com os mercados de capitais on-chain, criando aplicações totalmente inovadoras.
A intuição fundamental das zero-knowledge proofs não é recente; JPMorgan, Zcash e Starkware colaboram há algum tempo para explorar o seu potencial. Contudo, só agora as condições tecnológicas e de talento estão alinhadas para uma aplicação em larga escala. Com a infraestrutura adequada, a tecnologia zero-knowledge proof está a atingir maturidade.
Aplicações Consumer e Mercados Preditivos
Para além da tokenização, o venture capital identifica oportunidades enormes em aplicações de consumo e nos mercados preditivos. Desde pioneiros como Augur até Polymarket, o setor está a atravessar uma explosão de crescimento. Os mercados preditivos permitem a qualquer pessoa criar mercados e apostar em qualquer tema: resultados empresariais, eventos desportivos, fenómenos sociais. Não representam apenas um novo entretenimento, mas um mecanismo eficiente e democrático de descoberta de informações.
O potencial dos mercados preditivos em termos de regulamentação, economia e redução de custos está a tornar-se cada vez mais claro. A possibilidade de criar mercados sobre qualquer tema trará uma quantidade sem precedentes de informações para os setores de notícias e trading, transformando a forma como o mercado processa e avalia as informações.
Estes desenvolvimentos demonstram que os mercados de capitais on-chain não são uma mera cópia dos mercados tradicionais. Na América Latina, muitos indivíduos fazem o seu primeiro investimento em Bitcoin através de plataformas como Bitso, sem nunca terem comprado ações tradicionais, mas poderão em breve aceder a derivados sofisticados como os perpetual futures. Este “salto geracional financeiro” sugere que esses investidores podem nunca usar as ferramentas tradicionais de Wall Street, percebidas como ineficientes e complexas. O venture capital reconhece nesta mudança um fator fundamental na transformação do comportamento dos investidores globais.
Princípios de Racionalidade no Venture Capital Crypto
No contexto de períodos de lock-up de tokens, uma discussão eternamente controversa na comunidade crypto, emerge com clareza um princípio fundamental do venture capital maduro: o pressuposto de que “investi, logo deve valer” é falso. A dura realidade do venture capital é que 98% dos projetos irão a zero. Se um projeto falha, a causa principal é a ausência de valor intrínseco, não a estrutura de lock-up.
Contudo, do ponto de vista de gestão, um período de lock-up razoável (tipicamente 2-4 anos) continua necessário, dando à equipa tempo para desenvolver o produto e atingir marcos críticos, evitando o colapso prematuro do preço do token. É fundamental que esses períodos sejam iguais para fundadores e investidores, refletindo o princípio de “uma equipa, um sonho”. Se um investidor procura cláusulas de saída preferenciais, indica falta de convicção a longo prazo, um sinal devastador para a viabilidade do projeto.
A Guerra das Layer 1: Perspetivas e Consolidação
A competição entre as Layer 1 de blockchains públicas continuará, embora com menor intensidade do que no passado. O venture capital não prevê o surgimento de muitas novas L1; antes, as chain existentes persistirão graças às suas comunidades consolidadas e ecossistemas desenvolvidos. A atenção atual concentra-se em como as L1 podem captar valor de forma sustentável.
Ainda é prematuro declarar a “morte” das L1, pois a evolução tecnológica continua e os mecanismos de captura de valor permanecem em fase de exploração. Solana, considerada “morta” por muitos observadores, demonstrou que o potencial persiste para chains que mantêm atividade on-chain significativa. Enquanto existir atividade on-chain, existirá sempre um mecanismo de captura de valor: as taxas de prioridade determinam tudo, e onde há competição, há valor.
Esta perspetiva sintetiza a evolução do venture capitalism no setor crypto: de especulação desenfreada a avaliação racional, de saídas tokenizadas a cotação pública, de obsessão por altcoins a uma diversificação estratégica. O venture capital moderno caracteriza-se pela profissionalização, due diligence rigorosa e foco na criação de valor duradouro, marcando uma maturidade definitiva do setor.