Em abril de 2025, comemora-se exatamente meio século desde a data que o próprio criador desconhecido escolheu como sua data de nascimento — 5 de abril de 1975. Satoshi Nakamoto, cujo nome há muito se tornou sinónimo de revolução no mundo das criptomoedas, permanece uma figura mítica: o seu bitcoin atingiu um máximo histórico de mais de 109 mil dólares, e a identidade do criador ainda não foi revelada após mais de dezasseis anos desde a sua saída da rede.
Quem está por trás do nome Satoshi Nakamoto?
31 de outubro de 2008, um documento apareceu numa mailing list especializada em criptografia, que mudou tudo. O white paper de nove páginas intitulado «Bitcoin: Sistema de Dinheiro Eletrónico Peer-to-Peer» apresentou a conceção de uma moeda descentralizada capaz de existir sem intermediários financeiros ou bancos. O seu autor assinou como Satoshi Nakamoto.
No perfil na P2P Foundation, este engenheiro misterioso indicou-se como um japonês de 37 anos. No entanto, uma análise linguística da sua correspondência revelou um inglês perfeito com ortografia britânica de palavras como «colour», «optimise», o que contradiz categoricamente as raízes japonesas. A análise da atividade mostrou que o autor raramente escrevia entre as cinco e as onze da manhã GMT, indicando um fuso horário norte-americano ou britânico.
O próprio nome contém pistas possíveis. Investigadores sugeriram que seria uma palavra composta a partir de nomes de empresas tecnológicas: Samsung, Toshiba, Nakamichi e Motorola. Outros imaginaram uma tradução que significaria «inteligência central» em japonês — especulações que continuam a alimentar teorias de envolvimento estatal na origem do bitcoin.
Ideia revolucionária que resolveu o impossível
O principal que Nakamoto criou foi a solução para o problema do gasto duplo, que há anos impedia qualquer tentativa de criar uma moeda digital. A sua conceção de blockchain como um registo distribuído, imutável, criptografado e protegido por um sistema de prova de trabalho tornou o défice digital uma realidade pela primeira vez.
Em 3 de janeiro de 2009, Nakamoto criou o primeiro bloco — o bloco gênese — do bitcoin. Nele foi embutido um texto do jornal britânico The Times: «The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks». Este selo não é casual: refletia a filosofia do criador, motivado pela crise do sistema bancário tradicional, e a sua vontade de oferecer uma alternativa ao mundo.
A data 5 de abril no perfil de Nakamoto não é apenas um número. Remete ao Decreto Executivo 6102, assinado pelo presidente Franklin D. Roosevelt exatamente nesse dia, em 1933, que proibiu os cidadãos americanos de possuírem ouro. O ano de 1975 na sua data de nascimento simboliza a revogação dessa proibição. Assim, a escolha da data revela a ideologia libertária de Nakamoto: o bitcoin é o ouro digital, uma moeda fora do controlo do Estado.
Desaparecimento do arquiteto: quando o génio desaparece na obscuridade
Nakamoto manteve-se ativo no desenvolvimento até ao final de 2010, escrevendo mais de 500 mensagens em fóruns e criando milhares de linhas de código. A sua última comunicação documentada data de abril de 2011 — uma carta ao desenvolvedor Gavin Andresen com uma frase que soa quase como uma despedida: «Lamento que continues a falar de mim como uma figura misteriosa e sombria. A imprensa só alimenta essa narrativa de moeda pirata».
Depois disso, transferiu o controlo do código-fonte para Andresen e desapareceu completamente do radar da comunidade de criptomoedas. Desde então, passaram-se catorze anos. Nenhuma declaração pública. Nenhum tweet. Nenhum movimento de bitcoins.
Estado avaliado em dezenas de mil milhões de dólares que permanece intocado
Investigadores de blockchain, analisando transações iniciais, determinaram que Nakamoto minerou entre 750 mil e 1,1 milhão de bitcoins no primeiro ano de existência da rede. Com o valor atual do bitcoin, cerca de 85 mil dólares (em abril de 2025), as suas carteiras contêm aproximadamente entre 63,8 e 93,5 mil milhões de dólares — uma fortuna que o colocaria no top 20 das pessoas mais ricas do planeta.
Mas o mais incrível é que nenhum satoshi dessa fortuna foi gasto desde a sua criação. Este fenómeno é conhecido como «padrão Patoshi» — um conjunto de padrões que permitiu ao investigador Sergio Demian Lerner identificar quais os blocos minerados por Nakamoto. O génio do blockchain até reduziu conscientemente a quantidade de mineração ao longo do tempo, para deixar espaço a outros participantes da rede.
O endereço do primeiro bloco contém 50 bitcoins que, tecnicamente, não podem ser gastos. Contudo, recebeu doações adicionais de apoiantes do bitcoin, acumulando mais de 100 moedas. É simbólico: mesmo após quase duas décadas, as pessoas continuam a venerar quem permanece com a identidade envolta em mistério.
Por que é que essa fortuna nunca foi movimentada?
Existem várias hipóteses. A primeira: Nakamoto perdeu o acesso às chaves privadas e não consegue mais aceder ao seu património. A segunda: morreu, levando consigo os segredos. A terceira, filosófica: deixou intencionalmente a sua riqueza como um presente para a ecossistema, sem desejar quaisquer bens materiais do seu próprio projeto.
Alguns investigadores sugeriram que, em 2019, Nakamoto começou a liquidar gradualmente as suas moedas através de várias exchanges. Contudo, essas teorias foram rapidamente desacreditadas: os padrões de transação não coincidiam com os endereços conhecidos de Nakamoto, indicando que se tratava mais de utilizadores iniciais da rede.
Há também uma quarta hipótese: Nakamoto não mexe na sua carteira porque qualquer venda através de uma exchange revelaria a sua identidade por procedimentos KYC ou análise de blockchain. Assim, a sua anonimidade permaneceria intacta.
Principais suspeitos: de criptógrafos a programadores
Apesar de décadas de investigações por jornalistas e detetives de criptomoedas, a verdadeira identidade continua oculta. No entanto, uma lista de suspeitos principais foi consolidada:
Hao Finney (1956–2014) — criptógrafo e um dos primeiros participantes do bitcoin, recebeu a primeira transação de Nakamoto. Possuía conhecimentos avançados em criptografia. Análise estilística revelou semelhanças no estilo de escrita. Finney vivia perto de Dorian Nakamoto na Califórnia. Antes de falecer de B.A.S., negou categoricamente ser o criador.
Nick Szabo — cientista da computação, conceptualizou o Bit Gold (antecessor do bitcoin) em 1998. Análise linguística revelou uma surpreendente semelhança entre as suas mensagens e os textos de Nakamoto. Os seus conhecimentos profundos em teoria monetária, criptografia e contratos inteligentes encaixam-se perfeitamente na arquitetura do bitcoin. Ele nega sempre a sua autoria.
Adam Back — criou o Hashcash, sistema de prova de trabalho mencionado no white paper. Foi um dos primeiros contactos de Nakamoto. Os seus conhecimentos em criptografia são impecáveis. Alguns apontam para semelhanças no estilo de codificação e uso do inglês britânico. Back também nega ser o criador, embora Charles Hoskinson, fundador da Cardano, o considere o candidato mais provável.
Dorian Nakamoto — engenheiro japonês-americano, erroneamente identificado pela revista Newsweek em 2014 como o criador do bitcoin. Quando questionado, respondeu de forma enigmática: «Não estou mais ligado a isso e não posso discutir», tendo depois esclarecido que interpretou mal a questão. Logo a seguir, uma conta inativa na P2P Foundation escreveu: «Eu não sou Dorian Nakamoto».
Creg Wright — programador australiano, afirma publicamente que é Satoshi desde 2016. Registou até direitos autorais do white paper nos EUA. Mas, em março de 2024, o juiz do Supremo Tribunal do Reino Unido, James Mellor, declarou categoricamente: «O Dr. Wright não é o autor do white paper do Bitcoin» e «não é uma pessoa sob pseudónimo Satoshi Nakamoto». O tribunal concluiu que os seus documentos são falsificados.
Peter Todd — antigo desenvolvedor do bitcoin, recentemente mencionado no documentário HBO de 2024 «Money: Electricity» como possível Nakamoto. Baseia-se em mensagens de chat e no uso do inglês canadiano. Todd chamou a essas hipóteses de «absurdas» e «uma esperança vã de quem se afoga».
Alguns investigadores sugerem que Nakamoto não é uma só pessoa, mas um coletivo de vários criptógrafos.
Por que a anonimidade se tornou uma característica arquitetónica do bitcoin?
O mistério da identidade de Satoshi não é apenas um caso criminal não resolvido na comunidade de criptomoedas. É uma característica fundamental do próprio design do bitcoin.
Ao permanecer anónimo, Nakamoto garantiu que a sua criação nunca teria uma figura central de autoridade. Se o criador estivesse ao vivo, tornaria-se um ponto vulnerável de falha para toda a rede. Os Estados poderiam persegui-lo. Interesses concorrentes poderiam suborná-lo ou ameaçá-lo. As suas palavras teriam peso excessivo, provocando volatilidade no mercado. As forks da rede dividir-se-iam, dependendo da sua posição.
O desaparecimento protege Nakamoto de ameaças físicas. Com uma fortuna de dezenas de mil milhões de dólares, poderia tornar-se alvo de extorsores, sequestros e crimes piores.
Mas o mais importante é que a anonimidade incorpora a própria filosofia do bitcoin. Num sistema concebido para eliminar a necessidade de terceiros de confiança, o criador deve permanecer invisível. Os utilizadores não precisam de acreditar numa pessoa ou instituição — apenas na matemática e no código. Nakamoto compreendeu isso e agiu de acordo com esses princípios.
Essa escolha permitiu ao bitcoin evoluir de forma orgânica, sem uma autoridade central, gerido por uma comunidade de desenvolvedores, mineiros e utilizadores em todo o mundo.
De monumentos a fenómeno cultural: o legado de Nakamoto
À medida que o bitcoin cresceu de um experimento tecnológico de nicho para um ativo reconhecido (o presidente Donald Trump assinou, em março de 2025, um decreto para criar a Reserva Estratégica de Bitcoin), a influência de Satoshi Nakamoto ultrapassou as fronteiras da tecnologia.
Em 2021, foi inaugurada em Budapeste uma escultura de bronze de Nakamoto com um rosto feito de material refletor, para que cada um se veja no espelho. Uma placa diz: «Somos todos Satoshi». Outro monumento está em Lugano, na Suíça, onde a cidade adotou o bitcoin para pagamentos municipais.
Citações do criador tornaram-se mantra na comunidade de criptomoedas. «A raiz do problema da moeda tradicional é a confiança que ela exige para funcionar» e «Se não confia em mim ou não entende, não tenho tempo para convencê-lo», repetem os entusiastas, explicando a essência do bitcoin.
Nakamoto também entrou na cultura popular. Marcas de roupa lançaram t-shirts e sweatshirts com o seu nome. Em 2022, até a famosa marca Vans lançou uma coleção limitada de calçado de Satoshi Nakamoto. Ele tornou-se símbolo da revolução digital e da contra-cultura da liberdade.
A inovação de Nakamoto — a blockchain — criou uma indústria inteira: do Ethereum e contratos inteligentes ao financiamento descentralizado (DeFi), que desafia o sistema bancário. Os bancos centrais de todo o mundo estão a desenvolver as suas próprias moedas digitais baseadas em blockchain, embora as versões centralizadas sejam radicalmente diferentes da visão descentralizada de Nakamoto.
Onde está Satoshi Nakamoto hoje?
Ninguém sabe ao certo se Nakamoto está vivo. A sua última comunicação confirmada data de abril de 2011. Desde então, não usou nenhuma das suas contas públicas, nem moveu qualquer moeda das suas carteiras. Nem nas redes sociais, nem em entrevistas, nem mesmo anonimamente — total silêncio.
Em 2019, circularam rumores de que Nakamoto teria começado a liquidar gradualmente as suas moedas através de várias exchanges. Essas especulações foram rapidamente desmentidas: análises de transações mostraram que os padrões não coincidiam com os endereços conhecidos de Nakamoto.
Em outubro de 2023, surgiu a hipótese de que uma revelação jurídica da sua identidade estaria planeada para 31 de outubro de 2024 — o 16º aniversário do white paper. A maioria dos especialistas considerou esse rumor infundado.
Qual é a realidade? Talvez Nakamoto esteja morto, e as suas chaves privadas tenham sido perdidas para sempre. Talvez viva de forma discreta, assistindo à sua criação conquistar o mundo. Talvez apenas queira viver em paz, consciente de que a sua missão foi cumprida — criou uma tecnologia que já não precisa dele.
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Enigma de Satoshi Nakamoto: Quem criou o Bitcoin e por que permanece invisível?
Em abril de 2025, comemora-se exatamente meio século desde a data que o próprio criador desconhecido escolheu como sua data de nascimento — 5 de abril de 1975. Satoshi Nakamoto, cujo nome há muito se tornou sinónimo de revolução no mundo das criptomoedas, permanece uma figura mítica: o seu bitcoin atingiu um máximo histórico de mais de 109 mil dólares, e a identidade do criador ainda não foi revelada após mais de dezasseis anos desde a sua saída da rede.
Quem está por trás do nome Satoshi Nakamoto?
31 de outubro de 2008, um documento apareceu numa mailing list especializada em criptografia, que mudou tudo. O white paper de nove páginas intitulado «Bitcoin: Sistema de Dinheiro Eletrónico Peer-to-Peer» apresentou a conceção de uma moeda descentralizada capaz de existir sem intermediários financeiros ou bancos. O seu autor assinou como Satoshi Nakamoto.
No perfil na P2P Foundation, este engenheiro misterioso indicou-se como um japonês de 37 anos. No entanto, uma análise linguística da sua correspondência revelou um inglês perfeito com ortografia britânica de palavras como «colour», «optimise», o que contradiz categoricamente as raízes japonesas. A análise da atividade mostrou que o autor raramente escrevia entre as cinco e as onze da manhã GMT, indicando um fuso horário norte-americano ou britânico.
O próprio nome contém pistas possíveis. Investigadores sugeriram que seria uma palavra composta a partir de nomes de empresas tecnológicas: Samsung, Toshiba, Nakamichi e Motorola. Outros imaginaram uma tradução que significaria «inteligência central» em japonês — especulações que continuam a alimentar teorias de envolvimento estatal na origem do bitcoin.
Ideia revolucionária que resolveu o impossível
O principal que Nakamoto criou foi a solução para o problema do gasto duplo, que há anos impedia qualquer tentativa de criar uma moeda digital. A sua conceção de blockchain como um registo distribuído, imutável, criptografado e protegido por um sistema de prova de trabalho tornou o défice digital uma realidade pela primeira vez.
Em 3 de janeiro de 2009, Nakamoto criou o primeiro bloco — o bloco gênese — do bitcoin. Nele foi embutido um texto do jornal britânico The Times: «The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks». Este selo não é casual: refletia a filosofia do criador, motivado pela crise do sistema bancário tradicional, e a sua vontade de oferecer uma alternativa ao mundo.
A data 5 de abril no perfil de Nakamoto não é apenas um número. Remete ao Decreto Executivo 6102, assinado pelo presidente Franklin D. Roosevelt exatamente nesse dia, em 1933, que proibiu os cidadãos americanos de possuírem ouro. O ano de 1975 na sua data de nascimento simboliza a revogação dessa proibição. Assim, a escolha da data revela a ideologia libertária de Nakamoto: o bitcoin é o ouro digital, uma moeda fora do controlo do Estado.
Desaparecimento do arquiteto: quando o génio desaparece na obscuridade
Nakamoto manteve-se ativo no desenvolvimento até ao final de 2010, escrevendo mais de 500 mensagens em fóruns e criando milhares de linhas de código. A sua última comunicação documentada data de abril de 2011 — uma carta ao desenvolvedor Gavin Andresen com uma frase que soa quase como uma despedida: «Lamento que continues a falar de mim como uma figura misteriosa e sombria. A imprensa só alimenta essa narrativa de moeda pirata».
Depois disso, transferiu o controlo do código-fonte para Andresen e desapareceu completamente do radar da comunidade de criptomoedas. Desde então, passaram-se catorze anos. Nenhuma declaração pública. Nenhum tweet. Nenhum movimento de bitcoins.
Estado avaliado em dezenas de mil milhões de dólares que permanece intocado
Investigadores de blockchain, analisando transações iniciais, determinaram que Nakamoto minerou entre 750 mil e 1,1 milhão de bitcoins no primeiro ano de existência da rede. Com o valor atual do bitcoin, cerca de 85 mil dólares (em abril de 2025), as suas carteiras contêm aproximadamente entre 63,8 e 93,5 mil milhões de dólares — uma fortuna que o colocaria no top 20 das pessoas mais ricas do planeta.
Mas o mais incrível é que nenhum satoshi dessa fortuna foi gasto desde a sua criação. Este fenómeno é conhecido como «padrão Patoshi» — um conjunto de padrões que permitiu ao investigador Sergio Demian Lerner identificar quais os blocos minerados por Nakamoto. O génio do blockchain até reduziu conscientemente a quantidade de mineração ao longo do tempo, para deixar espaço a outros participantes da rede.
O endereço do primeiro bloco contém 50 bitcoins que, tecnicamente, não podem ser gastos. Contudo, recebeu doações adicionais de apoiantes do bitcoin, acumulando mais de 100 moedas. É simbólico: mesmo após quase duas décadas, as pessoas continuam a venerar quem permanece com a identidade envolta em mistério.
Por que é que essa fortuna nunca foi movimentada?
Existem várias hipóteses. A primeira: Nakamoto perdeu o acesso às chaves privadas e não consegue mais aceder ao seu património. A segunda: morreu, levando consigo os segredos. A terceira, filosófica: deixou intencionalmente a sua riqueza como um presente para a ecossistema, sem desejar quaisquer bens materiais do seu próprio projeto.
Alguns investigadores sugeriram que, em 2019, Nakamoto começou a liquidar gradualmente as suas moedas através de várias exchanges. Contudo, essas teorias foram rapidamente desacreditadas: os padrões de transação não coincidiam com os endereços conhecidos de Nakamoto, indicando que se tratava mais de utilizadores iniciais da rede.
Há também uma quarta hipótese: Nakamoto não mexe na sua carteira porque qualquer venda através de uma exchange revelaria a sua identidade por procedimentos KYC ou análise de blockchain. Assim, a sua anonimidade permaneceria intacta.
Principais suspeitos: de criptógrafos a programadores
Apesar de décadas de investigações por jornalistas e detetives de criptomoedas, a verdadeira identidade continua oculta. No entanto, uma lista de suspeitos principais foi consolidada:
Hao Finney (1956–2014) — criptógrafo e um dos primeiros participantes do bitcoin, recebeu a primeira transação de Nakamoto. Possuía conhecimentos avançados em criptografia. Análise estilística revelou semelhanças no estilo de escrita. Finney vivia perto de Dorian Nakamoto na Califórnia. Antes de falecer de B.A.S., negou categoricamente ser o criador.
Nick Szabo — cientista da computação, conceptualizou o Bit Gold (antecessor do bitcoin) em 1998. Análise linguística revelou uma surpreendente semelhança entre as suas mensagens e os textos de Nakamoto. Os seus conhecimentos profundos em teoria monetária, criptografia e contratos inteligentes encaixam-se perfeitamente na arquitetura do bitcoin. Ele nega sempre a sua autoria.
Adam Back — criou o Hashcash, sistema de prova de trabalho mencionado no white paper. Foi um dos primeiros contactos de Nakamoto. Os seus conhecimentos em criptografia são impecáveis. Alguns apontam para semelhanças no estilo de codificação e uso do inglês britânico. Back também nega ser o criador, embora Charles Hoskinson, fundador da Cardano, o considere o candidato mais provável.
Dorian Nakamoto — engenheiro japonês-americano, erroneamente identificado pela revista Newsweek em 2014 como o criador do bitcoin. Quando questionado, respondeu de forma enigmática: «Não estou mais ligado a isso e não posso discutir», tendo depois esclarecido que interpretou mal a questão. Logo a seguir, uma conta inativa na P2P Foundation escreveu: «Eu não sou Dorian Nakamoto».
Creg Wright — programador australiano, afirma publicamente que é Satoshi desde 2016. Registou até direitos autorais do white paper nos EUA. Mas, em março de 2024, o juiz do Supremo Tribunal do Reino Unido, James Mellor, declarou categoricamente: «O Dr. Wright não é o autor do white paper do Bitcoin» e «não é uma pessoa sob pseudónimo Satoshi Nakamoto». O tribunal concluiu que os seus documentos são falsificados.
Peter Todd — antigo desenvolvedor do bitcoin, recentemente mencionado no documentário HBO de 2024 «Money: Electricity» como possível Nakamoto. Baseia-se em mensagens de chat e no uso do inglês canadiano. Todd chamou a essas hipóteses de «absurdas» e «uma esperança vã de quem se afoga».
Alguns investigadores sugerem que Nakamoto não é uma só pessoa, mas um coletivo de vários criptógrafos.
Por que a anonimidade se tornou uma característica arquitetónica do bitcoin?
O mistério da identidade de Satoshi não é apenas um caso criminal não resolvido na comunidade de criptomoedas. É uma característica fundamental do próprio design do bitcoin.
Ao permanecer anónimo, Nakamoto garantiu que a sua criação nunca teria uma figura central de autoridade. Se o criador estivesse ao vivo, tornaria-se um ponto vulnerável de falha para toda a rede. Os Estados poderiam persegui-lo. Interesses concorrentes poderiam suborná-lo ou ameaçá-lo. As suas palavras teriam peso excessivo, provocando volatilidade no mercado. As forks da rede dividir-se-iam, dependendo da sua posição.
O desaparecimento protege Nakamoto de ameaças físicas. Com uma fortuna de dezenas de mil milhões de dólares, poderia tornar-se alvo de extorsores, sequestros e crimes piores.
Mas o mais importante é que a anonimidade incorpora a própria filosofia do bitcoin. Num sistema concebido para eliminar a necessidade de terceiros de confiança, o criador deve permanecer invisível. Os utilizadores não precisam de acreditar numa pessoa ou instituição — apenas na matemática e no código. Nakamoto compreendeu isso e agiu de acordo com esses princípios.
Essa escolha permitiu ao bitcoin evoluir de forma orgânica, sem uma autoridade central, gerido por uma comunidade de desenvolvedores, mineiros e utilizadores em todo o mundo.
De monumentos a fenómeno cultural: o legado de Nakamoto
À medida que o bitcoin cresceu de um experimento tecnológico de nicho para um ativo reconhecido (o presidente Donald Trump assinou, em março de 2025, um decreto para criar a Reserva Estratégica de Bitcoin), a influência de Satoshi Nakamoto ultrapassou as fronteiras da tecnologia.
Em 2021, foi inaugurada em Budapeste uma escultura de bronze de Nakamoto com um rosto feito de material refletor, para que cada um se veja no espelho. Uma placa diz: «Somos todos Satoshi». Outro monumento está em Lugano, na Suíça, onde a cidade adotou o bitcoin para pagamentos municipais.
Citações do criador tornaram-se mantra na comunidade de criptomoedas. «A raiz do problema da moeda tradicional é a confiança que ela exige para funcionar» e «Se não confia em mim ou não entende, não tenho tempo para convencê-lo», repetem os entusiastas, explicando a essência do bitcoin.
Nakamoto também entrou na cultura popular. Marcas de roupa lançaram t-shirts e sweatshirts com o seu nome. Em 2022, até a famosa marca Vans lançou uma coleção limitada de calçado de Satoshi Nakamoto. Ele tornou-se símbolo da revolução digital e da contra-cultura da liberdade.
A inovação de Nakamoto — a blockchain — criou uma indústria inteira: do Ethereum e contratos inteligentes ao financiamento descentralizado (DeFi), que desafia o sistema bancário. Os bancos centrais de todo o mundo estão a desenvolver as suas próprias moedas digitais baseadas em blockchain, embora as versões centralizadas sejam radicalmente diferentes da visão descentralizada de Nakamoto.
Onde está Satoshi Nakamoto hoje?
Ninguém sabe ao certo se Nakamoto está vivo. A sua última comunicação confirmada data de abril de 2011. Desde então, não usou nenhuma das suas contas públicas, nem moveu qualquer moeda das suas carteiras. Nem nas redes sociais, nem em entrevistas, nem mesmo anonimamente — total silêncio.
Em 2019, circularam rumores de que Nakamoto teria começado a liquidar gradualmente as suas moedas através de várias exchanges. Essas especulações foram rapidamente desmentidas: análises de transações mostraram que os padrões não coincidiam com os endereços conhecidos de Nakamoto.
Em outubro de 2023, surgiu a hipótese de que uma revelação jurídica da sua identidade estaria planeada para 31 de outubro de 2024 — o 16º aniversário do white paper. A maioria dos especialistas considerou esse rumor infundado.
Qual é a realidade? Talvez Nakamoto esteja morto, e as suas chaves privadas tenham sido perdidas para sempre. Talvez viva de forma discreta, assistindo à sua criação conquistar o mundo. Talvez apenas queira viver em paz, consciente de que a sua missão foi cumprida — criou uma tecnologia que já não precisa dele.