Aquela festa de criptomoedas em Washington revelou o quê
Em janeiro de 2025, uma festa temática de criptomoedas de 2500 dólares em Washington tornou-se o centro das atenções. Ex-membro do Congresso, presidente da Câmara, rapper… várias figuras reunidas no Andrews Mellon Hall.
O verdadeiro clímax aconteceu na metade da festa. Trump publicou numa das suas redes sociais uma mensagem aparentemente banal: “Divirtam-se!” Seguiu-se uma festa de dinheiro — ele tinha acabado de lançar um token chamado TRUMP.
De quase zero a 74 dólares, esse token teve uma ascensão mítica em poucas horas. As reações dos participantes da festa dividiram-se: alguns lamentaram não ter entrado mais cedo, outros suspeitavam de hacking na conta.
Mas não foi um ataque hacker. Foi algo real — uma “moeda meme” totalmente baseada em hype.
No mesmo fim de semana, Melania também lançou o token “MELANIA”. Em poucos dias, toda a família e seus parceiros comerciais lucraram mais de 500 milhões de dólares com esses dois tokens. Depois, o preço desabou.
Moedas meme: um jogo que ninguém quer admitir
A história das moedas meme começa em 2013. Dois engenheiros de software escolheram um meme da internet — um Shiba Inu com a cabeça inclinada — como símbolo de uma nova criptomoeda, criando o Dogecoin. A intenção era zombar da proliferação de moedas digitais, mas investidores correram para comprar. Em semanas, a avaliação do projeto atingiu 12 milhões de dólares.
Ao longo dos anos, o mercado de criptomoedas teve altos e baixos, mas as moedas meme nunca desapareceram. Após 2021, com o impulso de uma figura influente, novas moedas meme surgiram: Dogwifhat, Bonk, Fartcoin… Seu “sucesso” contrariou toda lógica financeira — sem produto, sem fluxo de caixa, sem valor real por padrão. A única forma de lucrar era vendendo por um preço mais alto para o próximo comprador. É a “especulação dentro da especulação”.
Fundadores de plataformas populares de criação e troca de moedas meme explicaram: “Segundo a hipótese do mercado eficiente, isso não deveria funcionar. Mas na prática, dá dinheiro.” O fundador, de 22 anos, parecia desconfortável numa cafeteria no centro de Manhattan. Não quis revelar o país ou o nome verdadeiro da empresa.
Na plataforma dele, criar um token leva poucos cliques — sem precisar programar, sem precisar de documentos, nem entender detalhes de blockchain. Qualquer tópico popular pode virar tema de moeda meme. Comprar também é simples: preço inicial de alguns centavos, crescendo com a demanda. Jovens usuários na internet discutem esses tokens nas redes sociais; se ganharem atenção suficiente, eles entram em grandes exchanges, atraindo mais traders, e o preço sobe ainda mais. Se escolherem bem, o investimento pode multiplicar por dez em poucas horas.
Porém, há um conflito evidente nesse mercado: para atrair traders, os criadores prometem “vender uma quantidade fixa de tokens a um preço baixo”. Mas, se o preço sobe, eles têm incentivo a “vender o máximo possível”. Estratégias comuns (embora ilegais) incluem: criar negociações falsas para simular atividade, pagar influenciadores secretamente para gerar “buzz espontâneo”, ou, se o criador for anônimo, vender secretamente. Nesse jogo, quem entra cedo, geralmente, é quem sai ganhando.
Escândalo de moeda meme do presidente argentino revela os bastidores
O ponto de virada veio um mês após o colapso do token TRUMP. Outro líder nacional entrou na onda das moedas meme — o presidente da Argentina apoiou uma moeda chamada “Libra” em 14 de fevereiro. Horas depois, o token desabou, e ele rapidamente apagou a postagem de apoio nas redes sociais.
Transações de criptomoedas ficam registradas na blockchain, o “livro-razão público”, deixando rastros. Um especialista em análise de dados de blockchain rastreou as transações e descobriu algo estranho: um endereço comprou 1,1 milhão de dólares em TRUMP em segundos (claramente com informações privilegiadas), vendeu três dias depois, lucrando 100 milhões de dólares. Outro endereço comprou antes do anúncio de MELANIA, lucrando 2,4 milhões de dólares. Analisando a cadeia de transações, o especialista concluiu que esses endereços pertencem à mesma pessoa ou equipe.
Mais interessante ainda: a “carteira” que criou a moeda Libra está conectada à carteira de MELANIA — e os manipuladores por trás de Libra já tiveram suas identidades expostas.
Essa pessoa é Hayden Davis, 29 anos, ex-estudante de uma universidade conservadora nos EUA, que se autodenomina “especialista em startups” no LinkedIn. Trabalha com o pai, Tom, que já foi preso por falsificação de cheques. Ambos promoveram uma empresa de marketing multinível de bebidas energéticas.
Agora, Davis e seu círculo são os manipuladores por trás do mercado de moedas meme. Criaram uma entidade semelhante a um “banco de investimentos” que oferece consultoria para emissores de tokens, conecta influenciadores, gerencia operações. Mas, segundo análises, todos os tokens que lançaram seguem um mesmo “padrão suspeito”: vendas internas → aumento de preço → colapso rápido. Os dados indicam que Davis e seus parceiros lucraram mais de 150 milhões de dólares com isso, metade vindo de Libra.
Quando o escândalo argentino veio à tona, Davis admitiu seu papel num vídeo online. Usava um moletom listrado, cabelo bagunçado dourado, óculos de aviador, tentando parecer sério, mas parecendo “totalmente fora do padrão de um elite financeiro”. Admitiu ter ganho 100 milhões de dólares com a venda de Libra, mas alegou que “apenas guardava o dinheiro” — que até hoje não foi devolvido.
O vídeo piorou a situação. A mídia revelou mensagens que Davis enviou a parceiros, com linguagem racista, e dizendo que seu chefe “assinou tudo que mandei, fez tudo que pedi”. Diante de pedidos de impeachment, o presidente argentino negou responsabilidade na TV, dizendo: “É como roleta russa, se a bala pegar, a culpa é sua.”
Um criador de conteúdo anti-fraude entrevistou Davis, que admitiu pela primeira vez “ter participado do lançamento de MELANIA”, mas se recusou a dar detalhes, alegando “não ter lucrado”. Na mesma entrevista, Davis afirmou que o universo das moedas meme é “totalmente desonesto”, chamando-o de “cassino sem regulamentação”. Explicou a tática chamada “sniping”: traders experientes compram com informações privilegiadas na hora do lançamento, e vendem quando outros entram. Admitiu que sua equipe também fez isso, mas alegou que era “uma estratégia defensiva, para evitar que outros enganassem investidores iniciantes”.
Mais importante, evidências revisadas pela Bloomberg Businessweek mostram que, após o lançamento de TRUMP e antes do anúncio de MELANIA, Davis enviou mensagens a parceiros dizendo que “MELANIA está prestes a lançar”, prometendo avisar amigos com antecedência, e mencionando um “plano Milei” confidencial na época. Ele se gabou de lucros “astronômicos” com moedas meme e insinuou envolvimento com TRUMP: “TRUMP me deu poder sem precedentes e riscos enormes.”
O papel das exchanges: suporte técnico ou conluio?
Davis não agiu sozinho. Ele estava conectado a uma rede maior. Um ex-parceiro de negócios dele virou delator, revelando que Davis não era o verdadeiro cérebro por trás.
Uma figura importante foi um executivo de uma exchange de criptomoedas, com o pseudônimo “astronauta de gato” de Cingapura. Ele virou o centro do ecossistema de moedas meme. Segundo informações, Davis dizia passar o dia todo com esse executivo e o CEO da plataforma.
O CEO da plataforma admitiu seu papel numa chamada de vídeo. Quando perguntado se participou de um esquema de “pumping and dumping”, ficou “muito surpreso”, e suspirou: “Me sinto mal”. Mas não negou proximidade com Davis, dizendo que foi ele quem apresentou os negócios: “Só fiz de ponte, sabe? A equipe de Melania precisava de ajuda, então apresentei eles ao Davis.”
Se esse executivo e sua plataforma ajudaram Melania, também participaram do token Trump? Essa questão nunca foi totalmente respondida.
Em uma investigação pública posterior, o delator gravou uma ligação com o CEO, onde ele suspeita que Davis manipula o esquema de “pumping and dumping” e diz que Davis costuma falar: “Ah, esse executivo falou”, “esse executivo me mandou fazer”, “esse executivo vai listar o token”. O delator deduz que os dois são parceiros. Após a divulgação do vídeo, o CEO saiu do cargo.
O idealismo e a contradição do “Meow” de Cingapura
Quem está por trás dessa figura virtual? Após rastrear pistas, descobriu-se que “Meow” é Ming Yeow Ng, 43 anos, de Cingapura. Ele é uma celebridade no mundo das criptomoedas: cofundador de uma plataforma de troca, criador de outro aplicativo de criptomoedas popular.
Ng escreve e participa de podcasts com reflexões filosóficas, falando sobre sua ajuda na construção de uma “criptomoeda de mercado livre”. Imagina um sistema chamado “GUM”( um enorme mercado unificado) onde qualquer pessoa pode negociar qualquer ativo. Acredita que criar novas moedas é a chave para construir um “futuro mais igualitário”. Em um artigo, disse que moedas meme não são fraude, mas “uma expressão cultural e digital da nova era”; em outro, comparou lançar criptomoedas a “fundar uma religião”.
Quando perguntado sobre sua relação com Davis e o token Trump, Ng ficou em silêncio. Afirmou que alguém do lado de Trump entrou em contato com sua plataforma pedindo “suporte técnico”, mas insistiu que a plataforma só forneceu “suporte técnico”, sem envolvimento na operação ou qualquer irregularidade: “Sem conluio por trás, só suporte técnico”, disse.
No café de gatos em Cingapura, Ng explicou com entusiasmo sua teoria. Acabara de voltar do Nepal, onde fez uma trilha e comeu “mel de alucinógeno” que torceu o joelho. No café, rodeado por jovens e gatos preguiçosos, discutia animadamente um artigo que estava escrevendo: “Todos os ativos financeiros são moedas meme”, argumenta ele, porque seu valor depende de “crença coletiva”. Até o dólar é uma moeda meme! Ele bateu na mesa com entusiasmo, com os olhos bem abertos.
Quando jornalistas perguntaram várias vezes sobre detalhes do Davis e do token Trump, Ng ficou impaciente. Disse que as grandes moedas meme “não são tão importantes para seus negócios” e acrescentou que seus planos são “muito mais ambiciosos”. “A moeda pode ser infinita”, afirmou, “e se criarmos uma para cada problema?”
Após o colapso: quem lucrou, quem perdeu
No fim do ano, tudo mudou. Segundo dados, o TRUMP caiu 92% do pico, para 5,90 dólares; o MELANIA caiu 99%, para apenas 0,11 dólares — praticamente sem valor.
Os advogados da família Trump alegaram que todas as ações foram legais. Um porta-voz da Casa Branca afirmou em entrevista que “o presidente e sua família nunca tiveram, e nunca terão, conflito de interesses”.
Mas outro fenômeno do mercado de moedas meme chocou: as pessoas que ajudaram a lançar e promover esses tokens permanecem em silêncio. Davis agora é um “paria” na indústria de criptomoedas — algo raro num setor que já despreza regras. Ninguém sabe onde ele está, suas redes sociais estão inativas, mas a blockchain mostra que ele continua manipulando moedas meme.
Um advogado de Nova York apontou que isso é uma “máquina de extração de valor definitiva, criada por pessoas altamente competentes”. Em 2025, ele processou plataformas que lançaram esses tokens, chamando-as de “cassino manipulado por insiders”; em outra ação, acusou Davis, o executivo da plataforma e suas empresas de repetidamente participarem de esquemas de “pumping and dumping”. Os dois processos ainda estão em andamento.
Todos os réus negam as acusações. Os advogados alegam que o Libra “não é fraude”, e que nunca prometeu que o token subiria; o advogado do executivo da plataforma afirma que ele “apenas desenvolveu o software da plataforma”, e que, se houve ilegalidade, não foi de sua responsabilidade.
Lições e reflexões
O boom das moedas meme revelou uma dura verdade: quando os criadores de hype fazem as regras, o mercado entra em caos.
Desde a festa do presidente até o escritório misterioso em Cingapura, passando pelo jovem conselheiro argentino e pelo discurso da Casa Branca de que “tudo é legal”, toda essa história expõe um ecossistema financeiro não regulado, cheio de negociações internas.
A família Trump diversificou seu “portfólio de conflitos de interesse”. O presidente propôs que o governo dos EUA criasse uma reserva estratégica de Bitcoin; seu filho possui uma mineradora de Bitcoin. O governo promoveu vendas de caças à Arábia Saudita, a família autorizou a marca “Trump” em arranha-céus de Jeddah. O presidente perdoou um bilionário do setor de criptomoedas, que apoiou outro projeto de criptomoeda da família.
Muitos influenciadores que promoviam moedas meme migraram para outros setores — alguns agora promovem “mercados preditivos”. Sob o governo anterior, reguladores consideraram esses mercados “jogos de azar ilegais” e os proibiram. Com o novo governo, a postura ficou mais branda, e a família Trump entrou nesse ramo também.
A questão permanece: num mundo sem regulamentação real, quem pode impedir a próxima “colheita”?
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Desde os tokens do Presidente até ao colapso do mercado: quem está a lucrar com a "popularidade"?
Aquela festa de criptomoedas em Washington revelou o quê
Em janeiro de 2025, uma festa temática de criptomoedas de 2500 dólares em Washington tornou-se o centro das atenções. Ex-membro do Congresso, presidente da Câmara, rapper… várias figuras reunidas no Andrews Mellon Hall.
O verdadeiro clímax aconteceu na metade da festa. Trump publicou numa das suas redes sociais uma mensagem aparentemente banal: “Divirtam-se!” Seguiu-se uma festa de dinheiro — ele tinha acabado de lançar um token chamado TRUMP.
De quase zero a 74 dólares, esse token teve uma ascensão mítica em poucas horas. As reações dos participantes da festa dividiram-se: alguns lamentaram não ter entrado mais cedo, outros suspeitavam de hacking na conta.
Mas não foi um ataque hacker. Foi algo real — uma “moeda meme” totalmente baseada em hype.
No mesmo fim de semana, Melania também lançou o token “MELANIA”. Em poucos dias, toda a família e seus parceiros comerciais lucraram mais de 500 milhões de dólares com esses dois tokens. Depois, o preço desabou.
Moedas meme: um jogo que ninguém quer admitir
A história das moedas meme começa em 2013. Dois engenheiros de software escolheram um meme da internet — um Shiba Inu com a cabeça inclinada — como símbolo de uma nova criptomoeda, criando o Dogecoin. A intenção era zombar da proliferação de moedas digitais, mas investidores correram para comprar. Em semanas, a avaliação do projeto atingiu 12 milhões de dólares.
Ao longo dos anos, o mercado de criptomoedas teve altos e baixos, mas as moedas meme nunca desapareceram. Após 2021, com o impulso de uma figura influente, novas moedas meme surgiram: Dogwifhat, Bonk, Fartcoin… Seu “sucesso” contrariou toda lógica financeira — sem produto, sem fluxo de caixa, sem valor real por padrão. A única forma de lucrar era vendendo por um preço mais alto para o próximo comprador. É a “especulação dentro da especulação”.
Fundadores de plataformas populares de criação e troca de moedas meme explicaram: “Segundo a hipótese do mercado eficiente, isso não deveria funcionar. Mas na prática, dá dinheiro.” O fundador, de 22 anos, parecia desconfortável numa cafeteria no centro de Manhattan. Não quis revelar o país ou o nome verdadeiro da empresa.
Na plataforma dele, criar um token leva poucos cliques — sem precisar programar, sem precisar de documentos, nem entender detalhes de blockchain. Qualquer tópico popular pode virar tema de moeda meme. Comprar também é simples: preço inicial de alguns centavos, crescendo com a demanda. Jovens usuários na internet discutem esses tokens nas redes sociais; se ganharem atenção suficiente, eles entram em grandes exchanges, atraindo mais traders, e o preço sobe ainda mais. Se escolherem bem, o investimento pode multiplicar por dez em poucas horas.
Porém, há um conflito evidente nesse mercado: para atrair traders, os criadores prometem “vender uma quantidade fixa de tokens a um preço baixo”. Mas, se o preço sobe, eles têm incentivo a “vender o máximo possível”. Estratégias comuns (embora ilegais) incluem: criar negociações falsas para simular atividade, pagar influenciadores secretamente para gerar “buzz espontâneo”, ou, se o criador for anônimo, vender secretamente. Nesse jogo, quem entra cedo, geralmente, é quem sai ganhando.
Escândalo de moeda meme do presidente argentino revela os bastidores
O ponto de virada veio um mês após o colapso do token TRUMP. Outro líder nacional entrou na onda das moedas meme — o presidente da Argentina apoiou uma moeda chamada “Libra” em 14 de fevereiro. Horas depois, o token desabou, e ele rapidamente apagou a postagem de apoio nas redes sociais.
Transações de criptomoedas ficam registradas na blockchain, o “livro-razão público”, deixando rastros. Um especialista em análise de dados de blockchain rastreou as transações e descobriu algo estranho: um endereço comprou 1,1 milhão de dólares em TRUMP em segundos (claramente com informações privilegiadas), vendeu três dias depois, lucrando 100 milhões de dólares. Outro endereço comprou antes do anúncio de MELANIA, lucrando 2,4 milhões de dólares. Analisando a cadeia de transações, o especialista concluiu que esses endereços pertencem à mesma pessoa ou equipe.
Mais interessante ainda: a “carteira” que criou a moeda Libra está conectada à carteira de MELANIA — e os manipuladores por trás de Libra já tiveram suas identidades expostas.
Essa pessoa é Hayden Davis, 29 anos, ex-estudante de uma universidade conservadora nos EUA, que se autodenomina “especialista em startups” no LinkedIn. Trabalha com o pai, Tom, que já foi preso por falsificação de cheques. Ambos promoveram uma empresa de marketing multinível de bebidas energéticas.
Agora, Davis e seu círculo são os manipuladores por trás do mercado de moedas meme. Criaram uma entidade semelhante a um “banco de investimentos” que oferece consultoria para emissores de tokens, conecta influenciadores, gerencia operações. Mas, segundo análises, todos os tokens que lançaram seguem um mesmo “padrão suspeito”: vendas internas → aumento de preço → colapso rápido. Os dados indicam que Davis e seus parceiros lucraram mais de 150 milhões de dólares com isso, metade vindo de Libra.
Quando o escândalo argentino veio à tona, Davis admitiu seu papel num vídeo online. Usava um moletom listrado, cabelo bagunçado dourado, óculos de aviador, tentando parecer sério, mas parecendo “totalmente fora do padrão de um elite financeiro”. Admitiu ter ganho 100 milhões de dólares com a venda de Libra, mas alegou que “apenas guardava o dinheiro” — que até hoje não foi devolvido.
O vídeo piorou a situação. A mídia revelou mensagens que Davis enviou a parceiros, com linguagem racista, e dizendo que seu chefe “assinou tudo que mandei, fez tudo que pedi”. Diante de pedidos de impeachment, o presidente argentino negou responsabilidade na TV, dizendo: “É como roleta russa, se a bala pegar, a culpa é sua.”
Um criador de conteúdo anti-fraude entrevistou Davis, que admitiu pela primeira vez “ter participado do lançamento de MELANIA”, mas se recusou a dar detalhes, alegando “não ter lucrado”. Na mesma entrevista, Davis afirmou que o universo das moedas meme é “totalmente desonesto”, chamando-o de “cassino sem regulamentação”. Explicou a tática chamada “sniping”: traders experientes compram com informações privilegiadas na hora do lançamento, e vendem quando outros entram. Admitiu que sua equipe também fez isso, mas alegou que era “uma estratégia defensiva, para evitar que outros enganassem investidores iniciantes”.
Mais importante, evidências revisadas pela Bloomberg Businessweek mostram que, após o lançamento de TRUMP e antes do anúncio de MELANIA, Davis enviou mensagens a parceiros dizendo que “MELANIA está prestes a lançar”, prometendo avisar amigos com antecedência, e mencionando um “plano Milei” confidencial na época. Ele se gabou de lucros “astronômicos” com moedas meme e insinuou envolvimento com TRUMP: “TRUMP me deu poder sem precedentes e riscos enormes.”
O papel das exchanges: suporte técnico ou conluio?
Davis não agiu sozinho. Ele estava conectado a uma rede maior. Um ex-parceiro de negócios dele virou delator, revelando que Davis não era o verdadeiro cérebro por trás.
Uma figura importante foi um executivo de uma exchange de criptomoedas, com o pseudônimo “astronauta de gato” de Cingapura. Ele virou o centro do ecossistema de moedas meme. Segundo informações, Davis dizia passar o dia todo com esse executivo e o CEO da plataforma.
O CEO da plataforma admitiu seu papel numa chamada de vídeo. Quando perguntado se participou de um esquema de “pumping and dumping”, ficou “muito surpreso”, e suspirou: “Me sinto mal”. Mas não negou proximidade com Davis, dizendo que foi ele quem apresentou os negócios: “Só fiz de ponte, sabe? A equipe de Melania precisava de ajuda, então apresentei eles ao Davis.”
Se esse executivo e sua plataforma ajudaram Melania, também participaram do token Trump? Essa questão nunca foi totalmente respondida.
Em uma investigação pública posterior, o delator gravou uma ligação com o CEO, onde ele suspeita que Davis manipula o esquema de “pumping and dumping” e diz que Davis costuma falar: “Ah, esse executivo falou”, “esse executivo me mandou fazer”, “esse executivo vai listar o token”. O delator deduz que os dois são parceiros. Após a divulgação do vídeo, o CEO saiu do cargo.
O idealismo e a contradição do “Meow” de Cingapura
Quem está por trás dessa figura virtual? Após rastrear pistas, descobriu-se que “Meow” é Ming Yeow Ng, 43 anos, de Cingapura. Ele é uma celebridade no mundo das criptomoedas: cofundador de uma plataforma de troca, criador de outro aplicativo de criptomoedas popular.
Ng escreve e participa de podcasts com reflexões filosóficas, falando sobre sua ajuda na construção de uma “criptomoeda de mercado livre”. Imagina um sistema chamado “GUM”( um enorme mercado unificado) onde qualquer pessoa pode negociar qualquer ativo. Acredita que criar novas moedas é a chave para construir um “futuro mais igualitário”. Em um artigo, disse que moedas meme não são fraude, mas “uma expressão cultural e digital da nova era”; em outro, comparou lançar criptomoedas a “fundar uma religião”.
Quando perguntado sobre sua relação com Davis e o token Trump, Ng ficou em silêncio. Afirmou que alguém do lado de Trump entrou em contato com sua plataforma pedindo “suporte técnico”, mas insistiu que a plataforma só forneceu “suporte técnico”, sem envolvimento na operação ou qualquer irregularidade: “Sem conluio por trás, só suporte técnico”, disse.
No café de gatos em Cingapura, Ng explicou com entusiasmo sua teoria. Acabara de voltar do Nepal, onde fez uma trilha e comeu “mel de alucinógeno” que torceu o joelho. No café, rodeado por jovens e gatos preguiçosos, discutia animadamente um artigo que estava escrevendo: “Todos os ativos financeiros são moedas meme”, argumenta ele, porque seu valor depende de “crença coletiva”. Até o dólar é uma moeda meme! Ele bateu na mesa com entusiasmo, com os olhos bem abertos.
Quando jornalistas perguntaram várias vezes sobre detalhes do Davis e do token Trump, Ng ficou impaciente. Disse que as grandes moedas meme “não são tão importantes para seus negócios” e acrescentou que seus planos são “muito mais ambiciosos”. “A moeda pode ser infinita”, afirmou, “e se criarmos uma para cada problema?”
Após o colapso: quem lucrou, quem perdeu
No fim do ano, tudo mudou. Segundo dados, o TRUMP caiu 92% do pico, para 5,90 dólares; o MELANIA caiu 99%, para apenas 0,11 dólares — praticamente sem valor.
Os advogados da família Trump alegaram que todas as ações foram legais. Um porta-voz da Casa Branca afirmou em entrevista que “o presidente e sua família nunca tiveram, e nunca terão, conflito de interesses”.
Mas outro fenômeno do mercado de moedas meme chocou: as pessoas que ajudaram a lançar e promover esses tokens permanecem em silêncio. Davis agora é um “paria” na indústria de criptomoedas — algo raro num setor que já despreza regras. Ninguém sabe onde ele está, suas redes sociais estão inativas, mas a blockchain mostra que ele continua manipulando moedas meme.
Um advogado de Nova York apontou que isso é uma “máquina de extração de valor definitiva, criada por pessoas altamente competentes”. Em 2025, ele processou plataformas que lançaram esses tokens, chamando-as de “cassino manipulado por insiders”; em outra ação, acusou Davis, o executivo da plataforma e suas empresas de repetidamente participarem de esquemas de “pumping and dumping”. Os dois processos ainda estão em andamento.
Todos os réus negam as acusações. Os advogados alegam que o Libra “não é fraude”, e que nunca prometeu que o token subiria; o advogado do executivo da plataforma afirma que ele “apenas desenvolveu o software da plataforma”, e que, se houve ilegalidade, não foi de sua responsabilidade.
Lições e reflexões
O boom das moedas meme revelou uma dura verdade: quando os criadores de hype fazem as regras, o mercado entra em caos.
Desde a festa do presidente até o escritório misterioso em Cingapura, passando pelo jovem conselheiro argentino e pelo discurso da Casa Branca de que “tudo é legal”, toda essa história expõe um ecossistema financeiro não regulado, cheio de negociações internas.
A família Trump diversificou seu “portfólio de conflitos de interesse”. O presidente propôs que o governo dos EUA criasse uma reserva estratégica de Bitcoin; seu filho possui uma mineradora de Bitcoin. O governo promoveu vendas de caças à Arábia Saudita, a família autorizou a marca “Trump” em arranha-céus de Jeddah. O presidente perdoou um bilionário do setor de criptomoedas, que apoiou outro projeto de criptomoeda da família.
Muitos influenciadores que promoviam moedas meme migraram para outros setores — alguns agora promovem “mercados preditivos”. Sob o governo anterior, reguladores consideraram esses mercados “jogos de azar ilegais” e os proibiram. Com o novo governo, a postura ficou mais branda, e a família Trump entrou nesse ramo também.
A questão permanece: num mundo sem regulamentação real, quem pode impedir a próxima “colheita”?