À medida que o mundo avança em direção a energias limpas e tecnologia avançada, as terras raras tornaram-se a nova fronteira na competição pela cadeia de abastecimento. Mas aqui está o truque — controlar as maiores reservas não significa necessariamente que se controla o mercado. Estudo de caso: o Brasil possui 21 milhões de toneladas métricas de recursos de terras raras, mas produziu praticamente nada em 2024. Enquanto isso, a China, com 44 milhões de toneladas métricas, teve uma produção real de 270.000 toneladas, consolidando seu domínio sobre o fornecimento global.
A desconexão entre reservas e produção revela o verdadeiro desafio enfrentado pelas indústrias dependentes desses materiais críticos. À medida que a demanda por baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas e componentes de alta tecnologia aumenta, a questão não é apenas quem possui mais terras raras — mas quem consegue realmente extraí-las e refiná-las de forma confiável.
Os Gigantes das Reservas: China Ainda Lidera, Mas a Competição Está Esquentando
De acordo com os últimos dados do US Geological Survey, as reservas globais de terras raras totalizam 130 milhões de toneladas métricas. A China lidera com 44 milhões de MT, seguida pelo Brasil com 21 milhões de MT. Mas a produção conta uma história completamente diferente.
A China produziu 270.000 MT em 2024, representando cerca de 69% da produção anual mundial de 390.000 MT. O domínio do país na verdade se intensificou nos últimos anos, apesar dos esforços anteriores de outras nações para diversificar o fornecimento. Essa concentração criou choques recorrentes na oferta — mais notavelmente em 2010, quando restrições às exportações da China fizeram os preços dispararem e desencadearam uma corrida global por fontes alternativas.
A Índia possui 6,9 milhões de MT em reservas e produziu 2.900 MT em 2024. A Austrália ocupa a quarta posição com 5,7 milhões de MT, mas com apenas 13.000 MT de produção. Rússia, Vietnã, Estados Unidos e Groenlândia completam o top oito, cada um com entre 1,5 e 3,8 milhões de MT.
Capacidade de Produção: O Verdadeiro Gargalo
Aqui é onde a complexidade da cadeia de abastecimento surge. As reservas do Vietnã foram revisadas para baixo, de 22 milhões de MT para 3,5 milhões de MT, em um único ano — uma redução de 84% que indica o quão rapidamente as estimativas de reservas podem mudar com base na viabilidade de extração e no ambiente regulatório. O Vietnã produziu apenas 300 MT em 2024, apesar dessas reservas, em parte devido a repressões regulatórias que prenderam seis executivos do setor em outubro de 2023.
Os EUA produziram 45.000 MT a partir de sua única mina Mountain Pass, na Califórnia, tornando-se o segundo maior produtor global, apesar de possuir apenas 1,9 milhão de MT em reservas. Essa lacuna de eficiência destaca como a tecnologia de extração e a maturidade operacional são tão importantes quanto a abundância geológica.
Novos Players Emergentes, Mas os Prazos Ainda São Incertos
O projeto Serra Verde, no Brasil, iniciou a produção comercial da Fase 1 no início de 2024, na jazida Pela Ema. Até 2026, a empresa espera produzir 5.000 MT por ano — um número modesto, mas significativo, pois Pela Ema produzirá todas as quatro terras raras magnéticas críticas (neodímio, praseodímio, térbio e disprósio), que atualmente só operações chinesas fornecem em escala.
A expansão da Lynas Rare Earths na Austrália, em Mount Weld, está prevista para ser concluída em 2025, com uma nova instalação de processamento em Kalgoorlie já produzindo matéria-prima de carbonato de terras raras misto. A mina Yangibana, da Hastings Technology Metals, na Austrália, está pronta para operação, com um acordo de compra de produção em vigor, visando a entrega do primeiro concentrado no Q4 de 2026.
Groenlândia possui 1,5 milhão de MT em reservas distribuídas por vários projetos, incluindo Tanbreez e Kvanefjeld. No entanto, desafios de licenciamento atrasaram o desenvolvimento — o governo da Groenlândia revogou a licença da Energy Transition Minerals para Kvanefjeld devido a preocupações com extração de urânio, e planos alterados subsequentes foram rejeitados em setembro de 2023. A empresa aguarda uma decisão judicial até outubro de 2024.
A Dimensão Geopolítica
As tensões entre EUA e China sobre o fornecimento de terras raras se intensificaram. Em dezembro de 2023, a China proibiu exportações de tecnologia para a fabricação de ímãs de terras raras, direcionando-se diretamente às capacidades de veículos elétricos e defesa dos EUA. Paralelamente, a China aumentou as importações de terras raras pesadas de Myanmar — país sem dados públicos de reservas reportados pelo USGS. Embora isso diversifique o fornecimento da China, a mineração de terras raras em Myanmar acelerou os danos ambientais, com a Global Witness documentando 2.700 piscinas ilegais de lixiviação in situ que cobrem uma área do tamanho de Singapura até meados de 2022.
O governo Biden alocou US$17,5 milhões em abril de 2024 para extração de terras raras de fontes secundárias de carvão, sinalizando um foco renovado dos EUA na resiliência do fornecimento doméstico. No entanto, a expansão da capacidade ainda levará anos.
O Que Isso Significa para o Risco na Cadeia de Abastecimento
A produção global aumentou para 390.000 MT em 2024, contra 376.000 MT no ano anterior — um ganho modesto de 3,7%. Há uma década, a produção era pouco acima de 100.000 MT. Embora o crescimento esteja acelerando, o ritmo ainda é insuficiente para atender à demanda projetada por infraestrutura de energia limpa.
A verdadeira limitação de fornecimento não é a geologia — é a capacidade de extração, infraestrutura de processamento, conformidade ambiental e estabilidade geopolítica. As classificações de reservas importam menos do que responder a esta pergunta: quais nações podem fornecer consistentemente a produção que o mundo realmente precisa?
Brasil, Austrália e EUA poderiam, coletivamente, aumentar a produção de forma significativa em 3-5 anos, mas a vantagem operacional e os custos da China significam que qualquer estratégia de diversificação levará décadas para reduzir substancialmente a dependência. Até que uma nova capacidade em escala entre em operação, a cadeia de abastecimento de terras raras permanecerá apertada e vulnerável a interrupções.
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Fornecimento Global de Terras Raras: Por que as Classificações de Reservas Não Contam a História Completa
À medida que o mundo avança em direção a energias limpas e tecnologia avançada, as terras raras tornaram-se a nova fronteira na competição pela cadeia de abastecimento. Mas aqui está o truque — controlar as maiores reservas não significa necessariamente que se controla o mercado. Estudo de caso: o Brasil possui 21 milhões de toneladas métricas de recursos de terras raras, mas produziu praticamente nada em 2024. Enquanto isso, a China, com 44 milhões de toneladas métricas, teve uma produção real de 270.000 toneladas, consolidando seu domínio sobre o fornecimento global.
A desconexão entre reservas e produção revela o verdadeiro desafio enfrentado pelas indústrias dependentes desses materiais críticos. À medida que a demanda por baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas e componentes de alta tecnologia aumenta, a questão não é apenas quem possui mais terras raras — mas quem consegue realmente extraí-las e refiná-las de forma confiável.
Os Gigantes das Reservas: China Ainda Lidera, Mas a Competição Está Esquentando
De acordo com os últimos dados do US Geological Survey, as reservas globais de terras raras totalizam 130 milhões de toneladas métricas. A China lidera com 44 milhões de MT, seguida pelo Brasil com 21 milhões de MT. Mas a produção conta uma história completamente diferente.
A China produziu 270.000 MT em 2024, representando cerca de 69% da produção anual mundial de 390.000 MT. O domínio do país na verdade se intensificou nos últimos anos, apesar dos esforços anteriores de outras nações para diversificar o fornecimento. Essa concentração criou choques recorrentes na oferta — mais notavelmente em 2010, quando restrições às exportações da China fizeram os preços dispararem e desencadearam uma corrida global por fontes alternativas.
A Índia possui 6,9 milhões de MT em reservas e produziu 2.900 MT em 2024. A Austrália ocupa a quarta posição com 5,7 milhões de MT, mas com apenas 13.000 MT de produção. Rússia, Vietnã, Estados Unidos e Groenlândia completam o top oito, cada um com entre 1,5 e 3,8 milhões de MT.
Capacidade de Produção: O Verdadeiro Gargalo
Aqui é onde a complexidade da cadeia de abastecimento surge. As reservas do Vietnã foram revisadas para baixo, de 22 milhões de MT para 3,5 milhões de MT, em um único ano — uma redução de 84% que indica o quão rapidamente as estimativas de reservas podem mudar com base na viabilidade de extração e no ambiente regulatório. O Vietnã produziu apenas 300 MT em 2024, apesar dessas reservas, em parte devido a repressões regulatórias que prenderam seis executivos do setor em outubro de 2023.
Os EUA produziram 45.000 MT a partir de sua única mina Mountain Pass, na Califórnia, tornando-se o segundo maior produtor global, apesar de possuir apenas 1,9 milhão de MT em reservas. Essa lacuna de eficiência destaca como a tecnologia de extração e a maturidade operacional são tão importantes quanto a abundância geológica.
Novos Players Emergentes, Mas os Prazos Ainda São Incertos
O projeto Serra Verde, no Brasil, iniciou a produção comercial da Fase 1 no início de 2024, na jazida Pela Ema. Até 2026, a empresa espera produzir 5.000 MT por ano — um número modesto, mas significativo, pois Pela Ema produzirá todas as quatro terras raras magnéticas críticas (neodímio, praseodímio, térbio e disprósio), que atualmente só operações chinesas fornecem em escala.
A expansão da Lynas Rare Earths na Austrália, em Mount Weld, está prevista para ser concluída em 2025, com uma nova instalação de processamento em Kalgoorlie já produzindo matéria-prima de carbonato de terras raras misto. A mina Yangibana, da Hastings Technology Metals, na Austrália, está pronta para operação, com um acordo de compra de produção em vigor, visando a entrega do primeiro concentrado no Q4 de 2026.
Groenlândia possui 1,5 milhão de MT em reservas distribuídas por vários projetos, incluindo Tanbreez e Kvanefjeld. No entanto, desafios de licenciamento atrasaram o desenvolvimento — o governo da Groenlândia revogou a licença da Energy Transition Minerals para Kvanefjeld devido a preocupações com extração de urânio, e planos alterados subsequentes foram rejeitados em setembro de 2023. A empresa aguarda uma decisão judicial até outubro de 2024.
A Dimensão Geopolítica
As tensões entre EUA e China sobre o fornecimento de terras raras se intensificaram. Em dezembro de 2023, a China proibiu exportações de tecnologia para a fabricação de ímãs de terras raras, direcionando-se diretamente às capacidades de veículos elétricos e defesa dos EUA. Paralelamente, a China aumentou as importações de terras raras pesadas de Myanmar — país sem dados públicos de reservas reportados pelo USGS. Embora isso diversifique o fornecimento da China, a mineração de terras raras em Myanmar acelerou os danos ambientais, com a Global Witness documentando 2.700 piscinas ilegais de lixiviação in situ que cobrem uma área do tamanho de Singapura até meados de 2022.
O governo Biden alocou US$17,5 milhões em abril de 2024 para extração de terras raras de fontes secundárias de carvão, sinalizando um foco renovado dos EUA na resiliência do fornecimento doméstico. No entanto, a expansão da capacidade ainda levará anos.
O Que Isso Significa para o Risco na Cadeia de Abastecimento
A produção global aumentou para 390.000 MT em 2024, contra 376.000 MT no ano anterior — um ganho modesto de 3,7%. Há uma década, a produção era pouco acima de 100.000 MT. Embora o crescimento esteja acelerando, o ritmo ainda é insuficiente para atender à demanda projetada por infraestrutura de energia limpa.
A verdadeira limitação de fornecimento não é a geologia — é a capacidade de extração, infraestrutura de processamento, conformidade ambiental e estabilidade geopolítica. As classificações de reservas importam menos do que responder a esta pergunta: quais nações podem fornecer consistentemente a produção que o mundo realmente precisa?
Brasil, Austrália e EUA poderiam, coletivamente, aumentar a produção de forma significativa em 3-5 anos, mas a vantagem operacional e os custos da China significam que qualquer estratégia de diversificação levará décadas para reduzir substancialmente a dependência. Até que uma nova capacidade em escala entre em operação, a cadeia de abastecimento de terras raras permanecerá apertada e vulnerável a interrupções.