A dívida pública dos EUA está prestes a ultrapassar os 40 trilhões de dólares (conforme figura)


Mas por que eu digo que os EUA dificilmente irão declinar?
A verdadeira vantagem competitiva dos EUA, a máquina de captação de talentos, é o que torna difícil a sua decadência, e aqueles que vivem esperando o colapso dos EUA, provavelmente continuarão a esperar.
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Em 1945, quando a Alemanha nazista acabou de capitular, os americanos fizeram uma coisa — enviaram pessoas ao redor do mundo para procurar cientistas alemães.
Essa operação ficou conhecida como “Plano Clipes de Papel”, um nome bem sem graça, mas as ações foram bastante duras: transportar mais de mil especialistas alemães em foguetes, físicos, químicos, incluindo Von Braun, que depois ajudou os EUA na missão Apollo à Lua.
Na mesma época, a União Soviética também buscava talentos, mas não tanto quanto os EUA, e seus métodos não eram tão “gentis” — os EUA ofereciam dinheiro, casas, cidadania; a URSS enviava as pessoas à força.
O resultado final todos sabem: os planos espaciais, nucleares e de mísseis dos EUA tiveram grande parte do cérebro “roubado” de Europa.
Não estou dizendo isso para mostrar que os EUA são astutos demais. Quero dizer que, desde então, os EUA entenderam uma coisa: o recurso mais valioso do mundo não é petróleo, nem ouro, mas as pessoas — mais precisamente, aquelas capazes de criar coisas novas.
02,
Núcleo: a “máquina de captação de talentos” dos EUA é a chave para sua difícil decadência
E os EUA passaram oitenta anos transformando-se numa máquina global de captação de talentos. Você pergunta se os EUA vão declinar? Eu te digo, enquanto essa máquina estiver funcionando, será difícil para eles declinarem.
03,
Erro comum: o que realmente significa “declínio do país”?
Muita gente ao falar de “declínio dos EUA” cita uma série de dados: quanto a dívida pública atingiu, quanto a manufatura se tornou uma indústria de fachada, quão deterioradas estão as infraestruturas.
Esses problemas existem? Sim, alguns são bastante graves.
Mas se você acha que esses problemas podem fazer os EUA “declinarem”, talvez haja um mal-entendido sobre o que é “declínio”.
Para mim, declínio é a posição de um país na economia e na tecnologia globais que vai se deteriorando continuamente. Não é que você tenha alguns problemas internos, mas que, ao comparar-se com outros países, fica cada vez mais atrasado, mais marginalizado.
Com esse padrão, os EUA não só não estão declinando, como estão se fortalecendo em certos aspectos. Em 1990, o PIB dos EUA representava cerca de um quarto do global; passaram-se mais de trinta anos e essa proporção praticamente não mudou.
Mais impressionante ainda, a participação dos EUA no G7 aumentou de 40% em 1990 para 58% atualmente — em outras palavras, entre os países desenvolvidos, os EUA estão cada vez mais distantes dos demais.
04,
Cartas na manga: as duas principais armas dos EUA, que se fortalecem mutuamente
Por que isso acontece? A resposta é simples: os EUA possuem duas cartas na manga, uma é o talento mundial, a outra é a capacidade de transformar talento em dinheiro. E essas duas cartas se reforçam mutuamente.
(1) Primeira carta: a “máquina de captação de talentos” global
Vamos falar do talento. Nos EUA, no setor de pesquisa — ciências, tecnologia, engenharia, matemática — mais de 40% dos doutores são estrangeiros.
Na área de computação, essa proporção chega a quase 60%.
Qual é o conceito? Significa que grande parte da inovação tecnológica de ponta nos EUA é sustentada por “importar cérebros”.
Todo ano, os jovens mais inteligentes do mundo, após o bacharelado, muitos escolhem fazer mestrado nos EUA, e uma parte deles acaba ficando para trabalhar.
Esse ciclo, que dura décadas, criou uma espécie de inércia: talentos se concentram onde há mais recursos, recursos fluem para onde há mais talentos, o efeito Matthiass, que só aumenta.
Sei que alguns dirão que a situação mudou: os estudantes chineses estão menos dispostos a ir para os EUA, mais cientistas chineses estão voltando para casa.
De fato, essa é uma tendência, e os dados mostram isso.
Mas é importante entender que os EUA não captam apenas chineses. Indianos, europeus, do Oriente Médio, africanos — globalmente, qualquer pessoa inteligente que queira fazer pesquisa, empreender ou ganhar dinheiro, ainda prefere os EUA.
A vontade dos estudantes chineses de ir para lá caiu uns 10%, parece bastante, mas o total ainda é grande, e outras fontes estão preenchendo essa lacuna.
Essa máquina de captação não depende de uma única fonte.
(2) Segunda carta: transformar “inteligência” em “riqueza”
Vamos à segunda carta: a capacidade de transformar talento em dinheiro. Parece simples, mas é extremamente difícil.
Você pensa, talento existe em todo lugar, na Europa, no Japão, por que esses lugares não criam empresas como a Silicon Valley, Tesla ou OpenAI?
Não é que seus cientistas sejam inferiores — muitos Nobel são europeus —, mas seus sistemas não são bons em transformar “inteligência” em “dinheiro”.
O diferencial dos EUA é que eles têm uma infraestrutura completa para comercializar inovação.
Se você tem uma boa ideia, na Silicon Valley há venture capital disposto a investir; se sua empresa decola, a Nasdaq permite abrir capital; se falhar, a lei de falências te protege, permitindo recomeçar.
Esse sistema funciona há décadas, formando um ecossistema: quem faz foguetes, IA, biotecnologia — qualquer ideia maluca — consegue encontrar dinheiro disposto a apostar.
Mais importante, os EUA têm um mercado enorme: 300 milhões de pessoas, falando a mesma língua, sob a mesma legislação, onde seus produtos podem ser vendidos diretamente.
Isso reduz custos de pesquisa e desenvolvimento e dá vantagem de escala.
Na Europa, embora a população seja parecida, o mercado é dividido em mais de vinte países, com línguas, leis e hábitos diferentes, o que encarece a adaptação de produtos.
No Japão, o mercado interno é pequeno, dependente de exportações, mas para exportar, precisa competir com empresas americanas na terra dos americanos.
Por que os EUA conseguem transformar vantagem tecnológica em vantagem econômica, enquanto outros países não?
Porque eles criaram um sistema que favorece a comercialização da ciência, enquanto na Europa, por exemplo, muitas descobertas científicas acabam sendo absorvidas por empresas americanas.
Veja os gigantes tecnológicos globais — Apple, Google, Microsoft, Amazon, Nvidia, Tesla, OpenAI — todos são empresas americanas.
Não é que europeus não sejam inteligentes, mas seus sistemas não suportam transformar inteligência em sucesso comercial de tal escala.
05,
Visão racional: os problemas dos EUA não comprometem sua competitividade central
Sei que alguns vão discordar: “E os problemas? Drogas, tiroteios, desigualdade, sistema de saúde, polarização política?”
Sim, esses problemas existem, alguns são graves.
A expectativa de vida dos EUA caiu nos últimos anos, ficando entre as piores entre países desenvolvidos.
A epidemia de opioides causa milhares de mortes por ano.
Tiroteios frequentes na mídia, a população já se acostumou.
A polarização política é intensa, o governo às vezes fecha por falta de consenso.
Esses são problemas? Sim. Afetam os EUA? Certamente.
Mas é preciso distinguir duas categorias de problemas:
Um, que realmente ameaça a estrutura do país — estagnação econômica, esgotamento da inovação, fuga de talentos em massa.
Outro, que incomoda, mas não ameaça a competitividade — segurança pública, infraestrutura, política.
A maior parte dos problemas dos EUA é da segunda categoria.
Pode parecer frio, mas a realidade é essa: a “força” de um país, no final, está na sua capacidade de criar riqueza e inovar.
Enquanto essa capacidade existir, outros problemas podem ser resolvidos com dinheiro, ou pelo menos não vão fazer o país “declinar”.
A morte por drogas, por exemplo, é uma tragédia, mas afeta principalmente os mais pobres, não impacta os engenheiros do Vale do Silício.
Tiroteios assustam, mas não impedem os operadores de Wall Street de fazer negócios.
Parece cruel, mas na competição global, o que importa é a capacidade de criar e inovar, não o bem-estar social de base.
Além disso, o sistema americano, embora pareça caótico, tem uma estranha capacidade de autorregulação.
Ele não depende de um governo forte para resolver tudo, mas do mercado, da sociedade, de um jogo de interesses que, lentamente, ajusta o sistema.
Esse ajuste é lento, às vezes ineficiente, frustrante, mas surpreendentemente resistente.
Na década de 1970, com estagflação, crise do petróleo, derrota no Vietnã, muitos diziam que os EUA estavam acabados; em 2008, a crise financeira, e ainda assim, eles se recuperaram.
Hoje, com polarização e divisão social, ainda há quem diga que os EUA vão ruir.
E o que aconteceu? Sempre se recuperaram, e os dados econômicos continuam surpreendendo.
06,
Esclarecimento: “declínio” é um processo longo, os EUA ainda não chegaram lá
Vou falar um pouco sobre o termo “declínio”. Muitos têm a ideia de que, quando um país declina, ele desmorona como um dominó.
Na verdade, não é assim.
Grandes impérios que declinaram, como Espanha, Holanda, Grã-Betânia, tiveram um declínio muito gradual, que os habitantes quase não perceberam.
A Inglaterra, por exemplo, foi potência mundial em 1900, e só saiu da primeira linha em 1950, após duas guerras mundiais e a descolonização.
Se perguntarmos a um inglês dos anos 1930 se a Inglaterra estava declinando, ele provavelmente acharia que não — o Império ainda era vasto, a libra era moeda internacional, Londres era centro financeiro.
A situação atual dos EUA ainda está longe do que foi a queda da Inglaterra.
A razão do declínio britânico foi que as guerras desgastaram suas forças, e a descolonização desfez o império.
Os EUA, por outro lado, não enfrentaram guerras devastadoras nem perderam colônias.
Sua hegemonia baseia-se em tecnologia, finanças e força militar, que continuam sendo as maiores do mundo.
07,
Conclusão: os EUA não declinarão em curto prazo, sua lógica central ainda funciona
Minha opinião é que: os EUA terão problemas? Sim.
Declinar? Não nos próximos anos, pelo menos no futuro próximo.
Porque a lógica que os sustenta — fluxo de talentos, inovação comercial, escala de mercado, resiliência institucional — ainda está operando normalmente.
Enquanto essa lógica estiver de pé, eles podem se reerguer e se autoalimentar continuamente.
Claro que essa lógica pode um dia falhar. Se os EUA fecharem suas fronteiras, restringirem drasticamente a imigração, expulsarem talentos estrangeiros, essa fonte de captação se esgotará.
Se a polarização se tornar insuportável, paralisando o governo e destruindo o Estado de Direito, a resiliência institucional se romperá.
Se o sistema educacional se deteriorar a ponto de não formar mais uma força de trabalho qualificada, dependerão totalmente de talentos estrangeiros — o que também não é sustentável.
Essas possibilidades existem? Sim.
Na minha avaliação, a probabilidade é baixa.
Mesmo com polarização política, as duas maiores forças políticas ainda têm interesses comuns em atrair talentos, proteger direitos de propriedade e manter o mercado.
Trump, por exemplo, fala em restringir imigração, mas não conseguiu acabar com o visto H1B — que é para talentos de alta tecnologia.
Por quê? Porque as empresas de tecnologia da Califórnia não podem funcionar sem esses talentos estrangeiros.
08,
Por fim: encare a realidade, a vantagem dos EUA ainda está lá
Para terminar, uma opinião que pode ser impopular: muitos no Brasil gostam de notícias de “queda dos EUA”, de que o país está à beira do colapso, e há canais que alimentam essa narrativa.
Entendo essa sensação, é como assistir a uma novela e torcer pelo vilão se dar mal — dá uma sensação de alívio, de justiça.
Mas consumir demais esse tipo de conteúdo pode levar a uma visão distorcida da realidade.
Os EUA têm problemas, muitos problemas.
Mas continuam sendo o lugar mais capaz de atrair mentes brilhantes e de transformar inteligência em riqueza.
Essa posição não é autoatribuída, é resultado de uma votação global — as pessoas escolhem ir para lá com os pés, não com palavras.
Você pode não gostar dessa realidade, mas precisa reconhecê-la.
Voltando à história do cientista alemão no começo, passaram-se oitenta anos, e os EUA continuam fazendo o mesmo — só que de forma mais discreta, em escala maior.
Eles não precisam mais enviar pessoas a outros países para “roubar” cérebros — jovens do mundo todo compram passagens, aplicam para vistos, universidades, empregos, e voluntariamente entregam seus melhores anos e suas mentes ao país.
Essa é a verdadeira vantagem competitiva dos EUA.
Enquanto essa vantagem existir, os EUA não declinarão.
E quanto ao momento em que essa vantagem possa acabar? Honestamente, não sei.
Pode ser em vinte anos, cinquenta, ou mais.
Mas uma coisa é certa: aqueles que vivem esperando o colapso dos EUA provavelmente continuarão a esperar por muito tempo.
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