Uma dura verdade sobre alavancagem, IA e Bitcoin

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Se há alguma cena de tirar o fôlego nos mercados de capitais em 2024, é — todo mundo quer ser o próximo Michael Saylor, mas a maioria morre na praia.

Nos últimos meses, uma turma de chamadas “Empresas de Reserva de Bitcoin” surgiu no mercado de ações dos EUA. Elas tentam replicar o roteiro da MicroStrategy: emitir dívida, comprar bitcoins, impulsionar o preço das ações. Mas o resultado tem sido desastroso.

O investidor experiente Andy Edstrom, em uma entrevista recente, descreveu essa tendência de forma direta como “um incêndio em um aterro de lixo (Dumpster Fire)”. Muitas imitadoras tiveram suas ações despencando 80% ou até 95% de suas máximas, e inúmeros investidores de varejo perderam tudo nessa onda de “falsa prosperidade”.

Por que a mesma estratégia é uma história de sucesso na MicroStrategy e piada de mau gosto em outros? Em um momento em que a narrativa de IA avança como um trem de carga esmagando tudo, o Bitcoin ainda é aquela melhor proteção contra riscos?

Hoje, vamos desvendar a lógica por trás dessa confusão toda.

Capítulo 1: A essência da MicroStrategy não é “comprar bitcoin”

É uma percepção contraintuitiva: se você acha que Michael Saylor está apenas se endividando loucamente para comprar bitcoin, talvez esteja enxergando só a superfície.

Andy Edstrom propôs um modelo psicológico extremamente perspicaz: Na verdade, a MicroStrategy está ganhando juros ao emitir “stablecoins” em dólares.

Vamos destrinchar esse mecanismo: o USDT (Tether), por exemplo, é uma stablecoin lastreada em títulos do Tesouro dos EUA, emitida como um token em dólares. O que a MicroStrategy faz, na essência, é “usar bitcoin como garantia, emitir dólares tokenizados que geram rendimento”.

Esses “dólares tokenizados”, na prática, correspondem a eles emitindo títulos conversíveis (Convertible Debt) e ações preferenciais (Preferred Stock).

  • Mecanismo: a MicroStrategy toma emprestado dólares de baixo custo (via emissão de dívida ou ações preferenciais), e converte esses fundos em bitcoin.
  • Margem de segurança: para garantir a segurança do sistema, é preciso manter uma “margem de garantia excessiva” muito elevada. Andy aponta que, considerando a volatilidade do bitcoin — que pode cair 70-80% em um ano — a MicroStrategy mantém uma margem de 5:1.

Por isso, ela é atualmente a única que conseguiu sucesso. Ela possui uma enorme reserva de bitcoins (que, até o momento da gravação, valem cerca de 560 bilhões de dólares), o que lhe permite ampliar seus ganhos com alavancagem de forma segura.

É uma engenharia financeira de livro-texto.

Já as imitadoras chamadas “DATs” (empresas de reserva de ativos digitais) geralmente são formadas por times que nunca gerenciaram uma companhia listada na bolsa, sem fluxo de caixa, e nem mesmo conseguem entregar relatórios financeiros à SEC no prazo. Elas tentam jogar com alavancagem alta sem margem de segurança, e o resultado só pode ser um incêndio.

“Estamos lidando com um mundo binário: a MicroStrategy está numa aliança isolada, enquanto a maioria das imitadoras é uma catástrofe completa.”

Capítulo 2: A névoa da avaliação — por que estamos pagando um prêmio?

Isso leva ao maior debate entre investidores: se quero manter bitcoin, por que não comprar o ativo à vista, ao seu preço real, ao invés de pagar um prêmio por uma ação como a MSTR?

Aqui entra um indicador central: MNAV (Market Net Asset Value, Valor Líquido de Mercado das Ativos).

Muitos entusiastas tentam convencer o mercado de que esses tipos de empresas devem ter um prêmio de 2x ou até 15x sobre o MNAV. Mas Andy Edstrom, com sua formação em economia, ridiculariza essa ideia. Ele revisou dados históricos de Fundos de Investimento Fechado (Closed-End Funds) ao longo de um século:

  • Normalidade: esses fundos geralmente negociam com desconto de 10% a 20%, raramente com um pequeno prêmio.
  • Exceções: apenas empresas com gestão extraordinária, como a Berkshire Hathaway, ou bancos com alavancagem de 10x, conseguem manter um prêmio de aproximadamente 2x sobre o valor contábil.

A conclusão é dura: a menos que uma empresa consiga provar que consegue bater o bitcoin a longo prazo através de gestão ativa (como financiar a juros baixos, realizar vendas de ativos em altos e recomprar em baixos), ela não deveria desfrutar de um prêmio elevado por muito tempo.

No caso da MSTR, o mercado paga esse prêmio porque ela realmente aumenta a quantidade de bitcoin por ação por meio de operações de capital. Mas para outras empresas que não geram fluxo de caixa positivo, apenas acumulam bitcoin (ou Ethereum, BNB), pagar prêmio é como pagar um “imposto de esperteza”.

Capítulo 3: O elefante na sala — IA suga a liquidez do bitcoin

Temos que encarar uma triste realidade: no último ano, o preço do bitcoin ficou relativamente “chato” e sem força, comparado às ações de tecnologia de IA.

Por quê? Porque a narrativa de IA é irresistível.

Preston Pysh apontou uma observação muito aguda: para os investidores de alta renda, entender bitcoin exige um esforço cognitivo enorme (criptografia, história do dinheiro, geopolítica). É uma verdadeira “carga de educação”.

Por outro lado, a IA é “satisfação instantânea”. Qualquer pessoa com um computador pode, ao digitar uma pergunta, receber uma resposta surpreendente do ChatGPT ou Gemini. Assim, o investidor pensa: “Caramba, isso pode mudar o mundo, tenho que comprar as empresas que estão por trás”.

Isso explica o fluxo de recursos. Tomemos o Google, por exemplo: embora tenha sido inicialmente ridicularizado, seu modelo Gemini está evoluindo rapidamente, rivalizando com a OpenAI. E a Tesla, liderada por Elon Musk, com seu Robotaxi e o humanoide (Optimus), está construindo os primeiros sinais de uma nova revolução industrial.

“Essas coisas (IA e robótica) são como um trem de carga em alta velocidade. Quando você vê a escala das fábricas planejadas por Elon, acha loucura. Mas, quando tudo estiver rodando, será o rei do mercado.”

Mas isso significa que o Bitcoin perdeu seu valor? De jeito nenhum.

Andy Edstrom reafirma seu prognóstico de 2019: o bitcoin deve chegar a 40 mil dólares por unidade até 2029 (com uma rede avaliada em 8 trilhões de dólares).

Porém, a lógica de investimento mudou. Em 2019, o bitcoin era “o melhor investimento ajustado ao risco para essa geração”. Mas, em 2025, embora ainda tenha potencial de crescimento de 5x, enfrenta uma forte competição da explosão de produtividade gerada pela IA.

O mundo está se dividindo em duas linhas principais:

  1. Impressão ilimitada de moeda fiduciária (impulsionada por dívidas governamentais e pelo caos social causado pela IA).
  2. Deflação por produtividade extrema (impulsionada por IA e robôs).

O Bitcoin é uma proteção contra a primeira, enquanto os gigantes da tecnologia capturam a segunda.

Epílogo: Encontrando certeza na confusão

Quando a maré baixar, veremos que a maioria das “ações conceito de bitcoin” está na praia, enquanto os verdadeiros gigantes (como a MSTR) estão evoluindo para uma nova forma de instituição financeira.

Para o investidor comum, o mercado hoje está cheio de ruído. Aqui vão 3 orientações baseadas nesta conversa profunda:

1. Cuidado com as armadilhas de “empresas de reserva falsa” — não se deixe enganar por termos como “o próximo MicroStrategy”. Se uma empresa não tem fluxo de caixa sólido ou bitcoin suficiente como garantia de sobra, esse prêmio é uma ilusão. Se você acredita no bitcoin, comprar o ativo em si (ou um ETF de bitcoin à vista) é sempre a menor risco.

2. Aposte na lógica fundamental de energia e computação — o limite da IA é o consumo de energia. Com o crescimento de data centers e robôs, a demanda por eletricidade vai explodir. Solar não dá conta de tudo, e gás natural e outras fontes de energia baseada em combustíveis fósseis podem estar subavaliadas. Não foque só em chips, olhe também para as tubulações que alimentam esses chips.

3. Bitcoin é “seguro”, não “loteria” — se você investir nele só para ficar rico rápido, pode acabar decepcionado ou distraído pelo crescimento da IA. O motivo final para manter bitcoin é: resistência à censura e proteção contra o colapso do fiat. Quando os governos, para lidar com o desemprego causado pela IA, tiverem que acionar a impressão de dinheiro nuclear, o Bitcoin, como uma rede de valor imutável, será seu ativo mais sólido na balança patrimonial.

Num mundo de tanta incerteza, manter as chaves privadas (self-custody) ainda é sua última linha de defesa.

“Tudo leva mais tempo no Bitcoin do que pensamos.” (Tudo no Bitcoin evolui mais devagar do que acreditamos, mas isso não significa que não vá acontecer.)

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